sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Dúvidas cruéis!

Desafio - Exercitando a escrita 2.

"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".

Dúvidas cruéis!

Passavam das nove horas da noite, de uma sexta feira sofrida, após uma semana de trabalho cheia de problemas a serem resolvidos, e alguns nem resolvidos, vindo de casa, não do trabalho, mas de casa, já banhado, com roupas limpas, com o suficiente no bolso para tomar um belo porre, cheio de desejo de encher um copo de chopp bem gelado e tomar todinho sem tirar da boca, sentindo o acre líquido descer goela abaixo, em enormes goladas rumo à escuridão e ao calor do interior do corpo para ser diluído e adentrar furtivo na corrente sanguínea tendo como norte o cérebro, aquele órgão danado onde reinam soberanas nossas emoções e pensamentos, bons e ruins, certos e errados, sóbrios ou descomedidos ou ébrios, como queiram, mas verdadeiros imperadores do nosso querer, mesmo quando não queremos nos rendemos a esses pensamentos e emoções.
Cheguei em casa e vi a luzinha da secretária eletrônica piscando, sinal de que havia recado pra mim. Pensei em não ouvir, pois na maioria das vezes eram de call centers me comunicando de um título protestado, ou de uma promoção para quitação de dívida de algum cartão que já não tenho mais. Não abri o recado, mas no banho, pensando em ligar para ela, me peguei pensando na luzinha da secretária e decidi ouvir... grande acerto... ou erro... ou acerto... acho que foi erro...não... acerto... ah... me estrepei de qualquer jeito.
Era ela...
disse apenas:
-Oi... sou eu... (Entre o “oi” e o “sou eu” passaram-se uns poucos segundos que para mim pareceram horas intermináveis)... -estou ligando para dizer que não quero mais você... (Bem que eu poderia ter desligado a máquina naquele instante, pois vieram outros poucos segundos, não mais que três, mas na condição emocional em que já me encontrava, pareceu a quantidade de meses que já tínhamos de relacionamento, bom relacionamento, nada de espetacular, mas bom relacionamento)... – conheci outra pessoa e vamos casar!
Pronto! O céu não caiu, o chão não sumiu, o ar não faltou, o que me fez sofrer foram as emoções e os pensamentos, aqueles mesmos maus pensamentos que se originam monárquicos no cérebro (lembram deles?). Pensamentos da traição, da infidelidade, da sacanagem sofrida.
Estava no balcão do bar pensando nas dívidas, nas contas vigentes, no negativo em muitos milhares de reais, pensando no chifre sofrido, lembrando de Djavan “Sabe lá, o que é não ter e ter que ter pra dar, sabe lá, sabe lá”, em como não ter como resolver esses problemas que para muitos parecem simples, mas para mim, naquele instante, eram insolúveis, quando de repente alguém me dá um tapinha nas costas e diz:
-Seus problemas estão resolvidos!!!!!!
Um inebriante aroma suave tomou conta do ambiente, terno e gravata, sapato bico fino de couro, anelão no anelar, com a sobrancelha feita, um pequeno brinco de diamante na orelha esquerda, um relógio chiquérrimo, um belo colar de ouro com um pingente de letra com um grande G, uma leve base sobre as maçãs do rosto e um sombreado retilíneo sobre as pálpebras delineavam uma make bem suave... Era um gênio moderno, ou uma gênia moderna, não consegui e nem precisava definir gênero, pois suas imediatas palavras não me pegaram de surpresa, nem de calças curtas, nem de supetão, me pegaram foi sem cérebro...
Disse:
Conheço seus problemas todos, suas dúvidas e convicções, suas alegrias e tristezas. Atenderei a apenas um entre dois desejos oferecidos: Você quer muitos milhares de reais ou 7 cm a mais no playground?
Oh, dúvida cruel!!!

Continue a história...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A onda perfeita - 1º texto do desafio exercitando a escrita. Para continuar.

O que pensa o (a) surfista quando vai dormir?
Na onda que pegou?
Na que não pegou?
Na que irá pegar?

Minha resposta:

O (a) surfista pensa na onda que “deseja” pegar, na que “anseia” por pegar.

Para reflexão e continuação:

Imagine que você é um (a) surfista e está na água no último minuto para a coroa de louros, na grande final do Torneio Mundial de Surf Profissional. Havia três caras na água, seus adversários são mais experientes que você, ambos somam oito títulos mundiais e você nenhum, os outros dois já saíram da água satisfeitos com suas pontuações, pois estão empatados a 8,9 pontos de dianteira da sua pontuação, o que lhes proporcionará, no mínimo, mais um título mundial, ainda que compartilhado. Você precisa de uma nota perfeita, uma performance perfeita, e para isso, precisa de uma onda perfeita, aquela com a qual você sonha todos os dias, aquela em que toda a galera grita seu nome da praia, vibrando de emoção pela onda perfeita e pelo seu desempenho nos drops e aéreos e tubos... mas... resta apenas um minuto, não um minuto dos grandes, nem dos médios, mas um minuto tamanho P, daqueles que tendo o mesmo número de segundos voa rápido nas asas do tempo como que sendo menor que os outros minutos. Virando-se você, à procura da onda perfeita, nada vê.

De repente, já com o pensamento de sair da água, de amargar um segundo lugar para dois primeiros lugares, desolado, seus ouvidos são abalroados de um intenso som vindo da areia, mas você só entendeu um, tipo, “Âo! Ão! Ão!”. Sem entender porque todos estavam de pé gritando e chamando seu nome, você vira pra trás e vê, a cerca de 700 metros de sua posição, a onda tão esperada, a onda perfeita, a maior da competição, gloriosa, aquela onda com a qual você sempre sonhou, mas... ao longe...bem no centro da onda...você vislumbra a sombra de um T-shark, um tubarão dos bigs, o tempo acabando, a onda nota 10, não, nota 11, a onda do título e...


Amigo (a)...Continue a história...

Revelação em quatro atos - Cadeia itinerante.


Certa vez, sentado à mesa da sala de estar, donde podia ver meu pai no sofá assistindo ao futebol na TV, iniciei uma carta... Assim.

1º Ato - A confissão

A quem não me conhece a fundo, quero confessar.
Já fui preso.
Pra mim não é uma coisa fácil de confessar, pois nem mesmo eu sei dizer quando aconteceu ou como aconteceu, uma vez que as imagens vêm à minha mente assim... meio turvas...como um sonho que a gente se esforça para lembrar ou uma lembrança de um passado distante, ou até mesmo uma lembrança de um festa regada a muito álcool, mulheres, rock e otras cositas más. O fato é que não consigo lembrar com clareza quando e como isso aconteceu, só sei que aconteceu. Outra coisa intrigante é que, às vezes, vejo meu pai nessas lembranças, como se ele me colocasse na cadeia. Coisa de doido mesmo.

2º Ato - As lembranças

Vou relatar o pouco que lembro.
Lembro bem que era uma cela com grades ao redor, era um pouco apertada porque eu conseguia tocar as grades da lateral esquerda e da direita sem sair do lugar, mas a grade da frente era mais distante, tinha que andar até ela e a de trás me servia de encosto. Outra coisa intrigante era o fato de não ter teto, isso mesmo, a cadeia não tinha teto. Sobre minha cabeça era livre, podia ver tudo acima de mim, mas não lembro se havia estrelas ou sol quente. Também lembro a sensação que eu tinha. Não era medo, ou solidão, ou clausura, era sensação de alegria, de prazer, de família.
A cadeia era itinerante... assim...tipo móvel. Lembro bem que passava em frente a um matagal, cheio de árvores frutíferas, e havia muito verde, pois eu conseguia ver, pelas grades, mangueiras, bananeiras, mamoeiros, abacateiros e muitas outras frutas, também lembro de campos verdes e vacas.
Ah! Como eu gostaria de entender essas minhas lembranças.
Lembro que passávamos por locais de morte, onde havia muitos corpos esquartejados, não dava para identificar nenhum, pois eram apenas pedaços de corpos, orelhas, pés, ossos, tudo muito vermelho de carne viva.
E o lago? Ah! Havia lago também. Lembro bem dos peixes, eram de todo tamanho, pequenos, grandes, gordos, magros, finos e compridos, alguns arredondados. Acho que passávamos também por estados do sul do país, ou até mesmo em outros países, pois eu me lembro de muito gelo, montanhas de gelo.
Eu sei que estava preso, mas não tenho lembranças de que essa prisão me fizesse ficar mais tenso, ou mais estressado, ou mais violento, lembro apenas de que era uma cadeia itinerante.

3º Ato - O Compartilhamento

Decidi ler a bendita carta para meu pai.
Peguei o papel avulso no qual escrevia a bendita, e levei até ele entre um tempo e outro do jogo na TV.
- Pai, disse eu, o senhor poderia me ajudar com uma coisa? Estou confuso com algumas lembranças que tenho.
Ele, muito sério, com aquele olhar de John Wayne, virou e disse:
- Fala, o que é?(ah bruto!).
Li a carta pra ele assim mesmo, meio sem graça, meio constrangido e no final fiquei chocado com a resposta de meu querido pai.

4º Ato – A descoberta

Ele disse:
- Deixa de ser leso, isso era quando tu eras criança e eu te colocava no carrinho do supermercado.

Ah!...
...Tá!...
...Então tá!...
...Que bom!...
...Ufa!...

...Sou ficha limpa.

Por Ricardo Serrão

Desafio (Exercitando a escrita).

Olá, amigo (a)!
Esse texto é pra vc mesmo...
...Sim...
Vc que acaba de se perguntar:
- Será que é comigo que esse gordo tá falando? -Será que esse texto é pra mim mesmo???
Você não precisa continuar a leitura, mas se continuar...
...Sim, é pra vc.
Há algum tempo eu vi uma onda de desafios de um bocadão de gente pelo mundo todo fazendo outro bocadão de coisas malucas. Algumas hilárias, outras sem noção. Confesso que curti alguns desses desafios, outros nem tanto e outros ainda nenhum pouquinho. É verdade que ninguém veio a esse mundo para ser unanimidade, ainda que esse seja o desejo de quase todos.
Bem... Também quero lançar um desafio.
Você que gosta de ler, mesmo que seja apenas posts dos amigos no facebook ou uma frase no twitter ou, sei lá, em qualquer uma dessas redes sociais, muitas vezes leu uma frase, ou um artigo, ou um livro e pensou:
-Poha cara, eu poderia ter escrito isso, e talvez até melhor.
Não é verdade?
Também aconteceu comigo. Sempre gostei de ler e de quando em vez vinha esse pensamento: -Poha, poderia ter sido eu a ter essa ideia de escrever sobre isso.
O negócio é que muitos têm desejo, desses muitos, todos têm capacidade, e desses todos, 100% tem conteúdo para escrever, ainda que à sua maneira, no seu ritmo e usando sua própria linguagem.
Um dia eu decidi colocar no papel algumas linhas que foram evoluindo para parágrafos e capítulos e se tornaram um livro. Pequeno, sim, mas um livro.
Tenho o desejo de escrever outro e não seria tão difícil assim, uma vez que já há uma pequena experiência, mas... Minha ideia é fazer um livro com a SUA PARTICIPAÇÃO. Que tal? Topas?
O desafio:
Iniciarei uma história aleatória, e a desenvolverei até determinado ponto e você dará continuidade a ela. Não precisa ser da mesma maneira que eu estiver escrevendo ou do mesmo modo como uso as palavras. Pode ser exatamente como você fala no dia a dia. Sem se preocupar com erros, pois eu mesmo farei as correções necessárias.
Outra coisa:
A continuação da história não precisa ser pública se você não se sentir seguro ou à vontade para isso, podendo enviar sua continuação inbox e eu reescreverei pra vc também inbox.
Mais uma coisa:
Essa ideia não precisa dar certo, mas precisa sair da minha cabeça, por isso estou desafiando você que está lendo até aqui. Porque se vc está lendo até aqui é porque a ideia lhe pareceu sensata.
Vamos ver no que vai dar, galera.

Eu topo... E você?

Evoluir é não julgar... É simplesmente... Amar.

Compartilhando coisa boa
Oi, minha Rainha!
Hoje estamos comemorando bodas. Na verdade não sei de quê, mas... pouco importa, desde que seja com você. ,
Qualquer semente que plantamos juntos, colhemos e colheremos juntos. Qualquer semente que plantamos separados, ou seja, individualmente, sem o outro saber, às vezes até escondendo deliberadamente, acredite, também colhemos e colheremos juntos, pois não importa o que o outro faça de bom ou de ruim, iremos colher os frutos juntos, sejam bons... ou...ruins...estaremos sempre presente na vida um do outro porque a cumplicidade tem sido a ferramenta usada por Deus para nos manter assim...colados. Confesso que pra mim é mais fácil permanecer ao teu lado uma vez que sua evolução na vida foi sempre para melhor, foi sempre uma evolução positiva, logo, você é a minha metade mais desenvolvida, mais bonita e mais qualitativa e menos inteligente, pois... não deve ser muito inteligente ficar comigo enquanto em mim só o que evolui fisicamente é a barriga, os cabelos brancos e a feiura, emocionalmente o medo, a chatice e a ansiedade, e espiritualmente...bom...isso sim evolui legal.
Agradeço a Deus por você não ter olhos somente para meus defeitos, se assim o fosse já teria deixado essa mala pra trás... para a “próxima”...não odeie tanto a “próxima” assim, porque quem seria tão pouco inteligente para ficar comigo?
Não peço muito. Não precisa nem me amar... apenas me suporte até que meus olhos fechem pela derradeira vez, ou eu precise fechar os seus.
Não lembro muito do nosso casamento, isso também não tem tanta importância assim. Foi só uma data e um evento. O que me interessa realmente é o hoje, a você de hoje, o eu de hoje, o nós de hoje. Ao passado só retorno se for para construir alguma coisa a partir dele ou para dar um bom testemunho da ação de Deus em nossas vidas.
Evoluir não é apenas admirar as qualidades evoluídas, a beleza evoluída, o intelecto evoluído. Evoluir é admirar o positivo e o negativo do outro, as coisas grandes e as pequenas, o bobó de camarão e o ovo bem fritinho, quase queimado, no pão no café da manhã, o perfume no pescocinho nas preliminares Das brincadeiras no playground e o cheiro de cozinha depois do almoço pronto.
Evoluir é “não medir” o certo ou o errado, o bom ou o ruim, o que serve ou o que não serve.
Evoluir é não julgar... É simplesmente... AMAR.


Fica a dica para quem ler essas linhas.

domingo, 1 de março de 2015

Livro 2 - Capítulo 2 - Vidas são mais importantes que coisas

Vidas são mais importantes que coisas

Já estávamos embarcados há dois dias e meio. O barco navegava contra a correnteza adversa do caudaloso rio, margeando-o para minimizar sua força. Já passava das sete horas da noite quando começamos ladear a fazenda de Dona Maria Helena, proprietária da Fazenda Trás-os-Montes. Levaríamos cerca de mais uma hora até chegar à sede, de tão grande que era o lugar, e a sede ficava no centro do enorme terreno. Era maior que todos os municípios que o circundavam. O recreio estava cheio, a turma toda, junto com suas famílias, foi convidada para os festejos do casamento de Maria João, única filha de Dona Manuela, que por sua vez, era a filha única de Dona Maria Helena e Seu Joaquim Alvarenga de Trás-os-Montes, um casal de portugueses que viviam no Brasil há muitas décadas instalados no interior brabo do norte. Devido à escuridão total, pois não havia luar naquela noite, o prático, que estava de turno no leme da nau, de minuto em minuto acendia um enorme refletor sobre o teto do barco e iluminava a margem para mensurar a distância e, de cabeça, calcular a profundidade da água. Como isso era possível não sei... mas é assim até hoje.
Atracamos e dezenas de empregados vieram nos ajudar com as coisas, parecíamos um bando de retirantes fugidos de alguma catástrofe, mas só parecíamos. Na verdade éramos as pessoas mais alegres do lugar pelo convite do casal de amigos que sempre que podiam, estavam na cidade conosco para nossos festejos também. Fato é que para eles, que possuíam até um pequeno avião, não era problema algum nos visitar. Maria João casara há um mês em São Paulo, e toda a família estava lá. Agora estava chegando da lua de mel para comemorar com a família no lugar onde nascera e de onde partira para a grande metrópole para estudar e se tornar odontóloga, dentista para nós. O avião tinha ido à capital paulista buscá-la com a mãe para passar uma semana com os avós na fazenda. Ela era mais velha que nós apenas uns cinco ou seis anos, era quase uma adolescente e se casara com um esportista. Chegamos e nos alojamos. Como era noite, o casal anfitrião só nos deu as boas vindas e se despediu para seus aposentos e logo pela manhã estaríamos juntos à mesa do café. Os adultos foram logo se retirar também, nós... é claro....queríamos um pouco de aventura e fomos andar pelo lugar, mesmo no escuro, arrumamos lanterna com o pessoal de lá e fomos quase em romaria, 213, Multihomem, Sobrancelha, Guepardo, Camarão, as gêmeas, Quarto de milha, Ed Gato, eu e Epifânio. Andamos um bocado pelo lugar, falando alto e rindo, dando sustos uns nos outros, não vimos animais soltos, andamos pela pista de pouso e decolagem da fazenda. Para nós era muito comprida, mas depois viemos saber que tinha apenas oitocentos metros... o que para nós...continuava sendo muito comprida, ora essa! Ao lado de uma das cabeceiras da pista havia um enorme hangar onde guardavam a aeronave e alguns tratores, do outro lado, uma casinha com duas bombas de combustíveis, como um pequeno posto de gasolina. Às margens da outra cabeceira havia apenas restos de carroças velhas, e o que naquela escuridão nos pareceu pneus usados cobertos com lona para não armazenarem água e se tornarem focos do mosquito da dengue ou de outros carapanãs.
Às cinco da madrugada a fazenda já estava a todo vapor, com todos acordados fazendo alguma coisa, inclusive os proprietários que já conversavam com nossos pais. A mesa estava montada com comidas típicas de interior, tapioca, beju, bata doce cozida, queijo coalho, coalhada, cará cozido, macaxeira cozida quentinha, banhada na manteiga, bolo de fubá, canjica, farofa de tucumã, ovos fritos e cozidos, jaraqui frito, melancia, mamão, manga, sucos diversos, e vários outros produtos da fazenda. Havia cerca de cinqüenta pessoas numa grande alegria. Nós comemos e zimpamos para o estábulo para montarmos em cavalos e passear pelas redondezas. Passamos um dia de sonhos, com os outros jovens do lugar, incluindo as locais com aquela beleza amazônica que só aqui tem. Alguns empregados já davam início aos preparativos do churrasco que aconteceria naquela tarde quando Maria João chegaria com sua mãe e o marido. No finalzinho do dia, quando já se desenhava o pôr-do-sol por sobre a linha do horizonte verde da floresta, voltamos à sede da fazenda e o que encontramos foi um alvoroço só. Apeamos dos cavalos e os amarramos perto do capim baixinho ao lado da casa. O avião da neta de Dona Maria Helena perdeu contato com o rádio da fazenda com o qual seu Joaquim sabia da localização e situação do tempo pelo piloto Ícaro Bentes, o grilo. A última notícia era que iriam se atrasar, pois o aeroporto de São Paulo esteve fechado por um tempo e só saíram no meio da tarde de lá. A noite caiu rapidamente e a tristeza e o desespero tomaram conta da casa grande. De repente faltou energia, o grupo gerador do lugar parou de funcionar. Correram para ativar o de reserva, mas descobriram que também estava com problemas. Pronto! O pânico tomou conta de todos. As mulheres choravam com Dona Helena, os homens falavam todos ao mesmo tempo o que poderiam fazer se o avião aparecesse no ar, pois não haveria luz na pista, uma vez que ela só era usada à noite em caso de extrema necessidade e com o auxílio das luzes do grupo gerador. Estávamos no canto da varanda só ouvindo sem entender muita coisa... menos Epifânio...ele estava observando tudo...calado e ouvindo...andando pelos cantos...no escuro....só haviam as luzes das lamparinas.
Ouviu-se um chiado no rádio que era à bateria. Aquele típico barulho de rádio tentando sintonizar. De repente a voz do grilo ecoou pela sala “PAPA TANGO CHARLIE ECO chamando fazenda Trás-os-Montes câmbio, alguém na escuta?” repetiu, mais uma vez e falou em outro tom “Seu Joaquim, pelo amor de Deus na escuta?” aqui é grilo chamando. Seu Joaquim correu para o rádio e mandando que todos na sala se calassem respondeu afoito:
“-GRILO MEU FILHO, ONDE VOCÊ ESTÁ?”
“-Patrão, estamos com problemas, combustível acabando, painel de controles operando limitado e não sabemos onde estamos, minha última referência de localização foi há 20 minutos quando pude avistar a estibordo o vulto do monte muiracatiara a cerca de um quilômetro de nós e estou me mantendo em linha reta, pois sei que vou em direção à fazenda, mas não tenho instrumentos para aterrissar nem como me localizar exatamente...Patrão...estamos em perigo.”
Dona Helena desmaiou, seu Joaquim entrou em desespero, não sabia o que fazer, só gritava com os empregados querendo saber do motor de luz, o que estavam fazendo.
“-Porra cadê essa merda de energia? O que estão fazendo que não conseguem colocar esse motor pra funcionar? Esse avião vai chegar em menos de vinte minutos por essas bandas e minha filha e minha neta precisarão de ajuda pra pousar aqui... vamos cambada, vamos... me ajudem pelo amor de Deus!!!”.
Ouvimos quando alguém chamou a atenção de seu Joaquim e disse:
“Seu Joaquim... peça ajuda a Epifânio... ele vai dar um jeito...”
Epifânio estava em pé, encostado na janela do lado de fora da casa, ouvindo e observando tudo... E nós, próximos dele, sentados na beira da varanda sem nada poder fazer... apenas esperar a morte certa...Seu Joaquim saiu rapidamente pela porta da casa e correu em direção a Epifânio e disse chorando como criança: -Lôro....não sei porque, mas se essas pessoas confiam em você é porque você pode fazer alguma coisa....me ajuda amiguinho...se você pode fazer alguma coisa me ajuda....salva minha filha e minha netinha...eu lhe dou qualquer coisa se puder me ajudar...faça o que for preciso.
“Epifânio acendeu uma lamparina que segurava na mão, levantou até a altura do rosto olhando fixamente para aquele desesperado senhor e perguntou: “-o que for preciso?”... “Sim!! O que for preciso”, disse seu Joaquim.
Ele se virou em nossa direção... pudemos ver aquele olhar de quem já quer lutar...lutar contra a morte...mais uma vez contra a morte...parecia ter prazer quando se tratava de vencer essas batalhas tensas em favor da vida...mesmo que não fosse a sua. Levantamos todos... meus cabelos se eriçaram arrepiados...parecia contágio...possessão...seus olhos brilhavam....lá se foi o pomo de adão naquela viagem...
“Galera... (na primeira palavra dele já podíamos sentir a emoção que tomava conta de nós... até os novatos foram atingidos pela descarga de adrenalina)... essa é a nossa deixa... vamos ajudar essa gente a aterrissar esse avião... aos cavalos!”...
Sobrancelha gritou: “-Riiiiiii Ráááááááá!!!!!!!”.
Montamos e ele foi dando as ordens:
Sobrancelha, Multihomem, Edgato e Camarão, peguem aqueles pneus e os coloquem enfileirados nas laterais da pista, como não são muitos, procurem colocar na metade dela, numa distância de dois metros entre um e outro; Guepardo, Quarto de milha e 213 amontoem aquelas carroças velhas no final da pista bem no centro; Meninas arrumem três tambores grandes de farinha e nos encontrem na cabeceira da pista; Valente comigo!
Fomos direto para as bombas de combustível, ele quebrou o cadeado das correntes nas mangueiras, as meninas chegaram, enchemos os tambores de gasolina e mandou que derramassem sobre os pneus deixando um rastro do combustível entre eles. Estavam pesados e eu fui ajudá-las, elas com um e eu com o outro enquanto Epifânio ficou enchendo o último tambor.
Estávamos cumprindo nossas tarefas quando ela passou a galope no centro da pista, com o tambor cheio sobre o cavalo, rumo ao final onde estavam as carroças. Banhou as carroças com o líquido inflamável. Gritou: “- Saiam daqui, saiam todos agora!”. E ateou fogo às carroças velhas o que iluminou o fim da pista. Também ateou fogo nos pneus o que pareceram as luzes laterais da pista.
Ouvimos o barulho do avião quando já chegávamos à casa grande. Todos gritaram de alegria quando viram a pista um pouco iluminada, mas seu Joaquim disse: “-É pouca luz... não vai dar certo!” Epifânio chegou a galope ligeiro e de longe gritou para o senhor da casa:
“-Seu Joaquim... qualquer coisa?”
“O patrão afirmou que sim, mas disse que não tinha luz suficiente, e que do avião não daria pra ver a cabeceira da pista.
 Epifânio repetiu “-Seu Joaquim... qualquer coisa?” O velho silenciou... e ficou lhe olhando.....ele completou: “-Avise pelo rádio que a pista está no meio do fogo....bem no centro das grandes chamas...avise agora!”
Que grandes chamas? Pensei.
Nem esperou a resposta... voltou rumo às bombas de combustível. Seu Joaquim avisou o grilo, mas o piloto informou não saber se daria certo, pois via o fogo muito pequeno lá de cima e que seria muito arriscado, mas não tinha outra coisa a ser feita.
Dona Helena em prantos, seu Joaquim descrente, mas com esperança...
O cavalo que o lôro montava chegou sozinho na casa. Vimos quando Epifânio acendeu duas tochas e se colocou na cabeceira da pista fazendo sinal para o avião. Poderia dar certo... mas o risco de morte era real...todos atônitos, numa gritaria desesperada....de repente...uma das tochas foi lançada rumo ao hangar... putaquiupariu... Ele tascou gasolina e tocou fogo no hangar do avião com os tratores dentro... e a outra tocha foi lançada rumo às bombas de combustível... BOOOOOMMMMMM... Lá se foi o posto pelos ares... vimos quando as bombas subiram e caíram longe como dois mísseis....pronto!...Pista iluminada... Todos gritaram pelo susto...o avião embicou no rumo das chamas....podíamos ver a silhueta de Epifânio contra o fogo na pista...andando em nossa direção e o pequeno avião passando lá atrás...no solo....seguro....parecia filme....enquanto todos correram para o final da pista em direção ao avião, ele caminhava em nossa direção vindo da cabeceira...todos sãos e salvos...num gigantesco abraço...   ...Seu Joaquim parou no meio do caminho e se virou para o pretinho das soluções...ele também parou e se virou para o senhor daquelas terras como que esperando algo...Seu Joaquim, num gesto de gratidão, tocou o peito com ambas as mãos abertas e estendeu o indicador direito apontando para o nosso amigo como que dizendo...”agora você é filho desta casa...tenho uma dívida com você”....nós esperamos ele chegar...ele chegou....disse apenas:
“-Tô com fome, será que ainda tem leite?”.

“Incomparável Epifânio!”.


Livro 2 Capítulo 1 - Drogado

Drogado

Quando soube que Dalila havia sido levada pelo velho Holandês, Epifânio sofreu o que jamais sofrera em toda sua vida de adolescente. Não ficou a mesma pessoa. Isolou-se de nós, e por mais que tentássemos fazer com que estivesse conosco como antes, ele não aceitava. Vivia amuado, sozinho, mesmo na escola. Assim ficou por longos meses. Víamos quando ia à casa de Ankie, talvez para perguntar notícias de sua amada Vida. Passava mais tempo na casa dela que em qualquer outro lugar, mas ainda assim, muitas foram as vezes em que o vimos a caminho do Borboleta Incendiada e andando com a turma dos drogados da cidade. Os mesmos caras de quem ele tanto disse para ficarmos longe agora eram sua principal companhia.
A turma foi se dispersando naturalmente. O elo mais forte que nos unia era a presença de Epifânio, a segurança que nos fazia sentir e a importância que ele dava a cada um de nós, e agora, nada mais disso nós tínhamos e precisávamos seguir em frente. Nenhum de nós queria se misturar com os maconheiros da área...ele quis....e se foi.
Um dia, quando eu estava completando 17 anos de idade, convidei toda a turma para uma festinha em minha casa, minha mãe faria um churrasco no almoço e depois veríamos um filme, ou iríamos pegar maracujá do mato como antigamente. Ele não apareceu. Fomos andar pelas trilhas, Guepardo, 213, camarão, sobrancelha, multi-homem, que quase não veio, pois estava cada vez mais envolvido com uma turma de “frutinhas” da escola, mas ainda assim era meu amigo e amigos são para sempre...e eu. Pegamos alguns cajus, alguns maracujás do mato, e fomos em direção ao espaço sideral, aquele lugar em que íamos nos satisfazer na bronha antes de conhecermos o lupanário de Dona Quenga. Fazia tempos que não tínhamos mais aquela prática de bater punheta todos juntos. Ficamos lá embaixo olhando a casa na árvore, sem subir...estava bem feia...tipo...tábuas quebradas, muitos galhos cresceram ao redor e ninguém se prestou a cortá-los....estava feia...muito feia. De repente ouvimos barulho lá dentro e fumaça subindo para a copa da árvore. Qual não foi nossa surpresa quando vimos as primeiras canelas preto-claras desbotadas aparecerem na escada descendo de lá...era Epifânio. Desceu com os olhos muito vermelhos, e em seguida desceram a turma de viciados com quem estava andando. Nem sequer nos deu importância, passou por entre nós esbarrando e empurrando-nos como se não fôssemos ninguém, quando quase caiu, de tão tonto que estava, sobre multi-homem, este lhe deu um tapão nas costas e azunhou o neguinho chapado, que nem sentiu dor. Os outros maconheiros passaram por nó rindo e Marlon, o líder deles, o único de maior, ainda falou:
“-Perderam...perderam!”.
Minha raiva cresceu ao ponto de voar sobre o cara e sair na porrada com ele, os outros não se meteram, nem dos nossos nem dos dele, éramos apenas nós dois brigando...briga feia, ele era forte, musculoso, e sabia brigar, mas eu tinha a meu favor a raiva que estava sentindo e o amor que tinha pelo amigo perdido. Foram quase 5 minutos de porrada intensa, socos, chutes, sangue, olho inchado, até puxão de cabelo e mordida rolou, pois em briga de rua vale tudo, até apertar as bolas do outro.
Apartaram ...estávamos muito machucados, mas valeu a pena...na verdade não valeu não... Epifânio nem sequer viu a briga, não deu a mínima pra mim ou pro outro cara...nada tinha a ver com o amigo que há pouco tempo era nosso líder...nosso irmão.
Fomos para nossas casas. No dia de meu aniversário o presente que ganhei foi uma surra de um maconheiro filho da puta, por causa de um cara que nem dava valor ao que sentia por ele.
À noite, deitado no escuro, sentindo dor e pensando no dia, na briga, no ex-amigo...chorei...chorei por ter perdido meu melhor amigo para as drogas. Não podia acreditar que tudo o que ele nos ensinou acerca de nos mantermos longe das drogas, não serviu pra ele. Ele que era tão mais forte que qualquer um de nós, não se dominou e caiu...quedou-se aos encantos dos alucinógenos. Eu não tinha muita prática em orar, mas, virei o corpo dolorido para o lado e, com os joelhos no chão, continuei o choro da perda, da vergonha...da saudade do bom amigo...do melhor amigo...   ...   ...   ...Estava no momento de maior angústia quando senti uma presença ao meu lado direito e um braço que se estendia por sobre meu ombro esquerdo, me puxando para junto de si. Não olhei...cheguei a pensar que se tratava de meu pai, pela forma carinhosa com que me abraçou....continuei chorando sem nada dizer a Deus...apenas chorando....e ouvi uma voz dizer:
“- Valente”.
Meu pomo de adão fez aquela conhecida viagem até a goela e voltou....os pêlos dos braços e das pernas se eriçaram num longo arrepio...senti até os da cabeça se colocarem de pé. Olhei pro lado, no escuro, e vi aqueles olhos arregalados me olhando...era Epifânio. Não precisei falar nada...ele me abraçou com o abraço mais fraternal que alguém poderia ser abraçado. Meus olhos jorraram uma cachoeira de lágrimas, como se o próprio Jesus Cristo estivesse me abraçando com seus braços de segurança, de paz, de carinho... de amor....amor de amigo.
“Lôro!” Exclamei. “Por que tu tá fazendo essas besteiras cara?”...”Porra, tu tá se drogando man!!”. “Sai dessa e volta para junto de nós...a turma já tá quase toda dispersa...tenho medo de que outros façam besteiras também e se percam...como você”.
- Valente...” disse ele.... Há cerca de seis meses, o Marlon, o cara com quem você brigou, chegou aqui na cidade, trazendo quase seis quilos de uma droga gosmenta, e ensinou os maconheirinhos daqui como misturar na maconha e fumar. Dizem que é tão viciante que logo a pessoa se torna escrava disso (hoje é petrificada e é chamada de crack). Pela quantidade de gente que fica perto da casa dele, estão chamando a droga de mel e os meninos de abelhas. Dona De Lurdes me pediu ajuda para tirar o filho dela dessa merda que esse tal de Marlon trouxe pra cá. Pensei por alguns dias e decidi tentar ajudar o Isaías, filho dela, mas para isso teria que aprender tudo sobre droga e como chegar perto do boqueiro sem que ele percebesse minha real intenção. Por uma semana fui comprar com meu próprio dinheiro a tal droga das mãos do cara, que, depois de ouvir sobre mim, decidiu que me queria perto dele me oferecendo o cargo de segurança da boca e para isso passou a me fornecer de graça a maldita. O fato é, que nunca coloquei sequer uma miligrama desse troço no meu corpo, nem de maconha também, mas precisava ganhar a confiança dele pra me aproximar de Isaías sem que notasse meu interesse em ajudá-lo. Andei pelo Ardjan a procura de informações sobre drogas e acabei me viciando em ler aquele monte de livros da biblioteca dele....em seis meses já li 48 livros, sobre vários temas, inclusive drogas. E quando vou à Dona Quenga, que sabe da tarefa que me foi solicitada, é para pegar dinheiro emprestado para repor o dinheiro das drogas que Marlon me manda vender e eu jogo no rio. Já tô devendo tanto a ela que acho que vou acabar tendo que comer aquela gorda de verdade. Sempre que ela me empresta eu digo...-Dona Quenga (Dona Maria Flor para os não íntimos) eu vou lhe pagar tudinho que a senhora tá me emprestando. E ela responde com um sorriso de canto de boca: “Sei que vai...ah vai!!”.
Eu não queria que nenhum de vocês estivesse por perto nessa onda Valente, por isso me afastei da turma, pois sei que não me deixariam entrar nessa sozinho, mas precisava estar só para resgatar, não só o Isaías, mas todos os outros garotos das mãos desse maldito traficante. Mais alguns dias e o entregarei às autoridades com todas as provas para que seja preso e vá direto para a cadeia.
Dias depois vimos o Marlon ser preso como muita droga na casa dele. Os garotos que viviam lá, e que quiseram ajuda, foram levados para uma clínica de drogados que ficava numa fazenda da igreja católica, na estrada interestadual....Isaías foi junto....Epifânio? Bom...nos abriu os olhos para a realidade das drogas no dia em que nos reunimos para recebê-lo de volta.
Outros adolescentes já estavam se aproximando de nós, como André Giovanini, que passamos a chamar de quarto de milha, Edgar, que se auto denominava Ed gato, e as gêmeas, o que Epifânio não gostou muito no início, mas depois achou legal, Ana Clara e Ana Beatriz, ambas lindas, elas tinham uma irmã que depois de um acidente, causado por uma brincadeira lesa do namorado, com arma de fogo, ficou numa cadeira de rodas...igualmente linda....Adara. O namorado? Sumiu!.
Depois de nos contar toda a história, Epifânio nos fez entender que as pessoas que usam drogas, só usam por vontade própria no início, mas depois de um tempo usam porque já estão viciadas e não conseguem mais controlar seus desejos. Que na maioria das vezes entram nessa por incentivo de más companhias, curiosidade, para tomar coragem de fazer algo muito errado e mostrar a alguém que é macho, ou ainda para fugir de problemas familiares, entre outros tantos motivos. “-Fiquem longe das drogas, elas destruirão seus corpos, sua saúde, sua vida escolar, sua vida na sociedade e farão de vocês pessoas cada vez menos inteligentes...fiquem longe dessa maldição. Quanto mais tempo passarem com os livros, mas longe dessa realidade marginal vocês estarão”.
“Esse é Epifânio....sempre preocupado com os outros”.
Perguntei: “-E Dalila?”.
Ele me olhou de banda e disse:
“-Estou trabalhando nisso”.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Epifânio Augusto em: Ninguem pode deter a morte.


Capítulo 15

Ninguém pode deter a morte

O velho Holandês veio disposto a levar o menino para sua terra, Amsterdã na Holanda, mas não levaria se dependesse de nós e de Dalila. Estávamos decididos a tirar Epifânio do hospital e escondê-lo, não tínhamos noção do risco de morte em que o colocaríamos com essa atitude, apenas queríamos nosso amigo aqui, conosco. Os pais dele já haviam autorizado a transferência, os médicos também não negaram, pois clinicamente ele estava bem, parecia apenas dormir um sono muito profundo e o que mais motivara tal decisão, é que o velho viera em seu próprio jatinho. Parecia ser bilionário lá prazoropa.

Nada podíamos fazer, apenas nos despedir do garoto e esperar que desse bom resultado essa coisa toda, apesar de sentirmos que com nossa companhia, mesmo que do lado de fora do hospital, ele pudesse melhorar a seu tempo.

Dalila estava inconformada, não parava de chorar, era sofrimento demais viver tal situação depois de tudo o que aconteceu em Goiás, e pior ainda, era pensar que Epifânio não podia escolher ir ou ficar no estado em que se encontrava.

(Acorda Lôro, porra!)

Seu Gertjan não desistiria de levar o guri...era muito estranho...que tanto interesse havia naquela família em Epifânio? Por que tanto zelo quando se tratava daquele endiabrado menino? Tentamos de todas as maneiras convencer seus pais a não deixarem levá-lo, mas....sem sucesso...afirmavam todo o tempo que seria para o bem dele, que teria mais recursos, que seria bem tratado e coisa e tal. Gertjan não parava de falar em seu idioma com o filho e em português com a família de Epifânio, parecia até grosseiro em alguns momentos, levantando a voz para Dona Cristina e seu Otacílio...chegou a dizer que aquela situação de amor adolescente não estava fazendo nada bem para o garoto. Ora essa, e quem era ele pra se meter na vida do nosso amigo? O que ele sabia sobre o amor de Dalila e Lôro? Morava a milhares de quilômetros de distância, como podia saber alguma coisa? O fato é que estava decidido a separar Epifânio de Dalila, por bem...ou por mal.

Meu coração começou a sofrer de raiva, angústia e medo...raiva daquele gigante, angústia de não poder fazer nada para evitar a transferência do doente e...medo de não mais ver Epifânio vivo. Os valentes queriam brigar, queriam gritar, nossos pais diziam que nada podíamos fazer, pois os pais dele já haviam autorizado a viagem. Choramos...choramos a ausência mesmo ainda estando na presença dele.

Dona Betsie, não suportando nos ver naquele sofrimento todo, conhecendo o sogro e sabendo que ele não desistiria de separar o casal de namorados, sugeriu algo que traria maiores dores ainda, mas que não tiraria nosso amigo de perto de nós....sugestão aceita...o jato voaria naquela noite mesmo para a Holanda e traria uma equipe de médicos e todo equipamento necessário para avaliar a situação de Epifânio e tirar o guri do coma.

Naquela noite o jatinho de seu Gertjan partiu rumo à Amsterdã, mas não foi levando sorrisos, tampouco deixou alegria. Só aceitou não levar Epifânio se, de alguma maneira, pudesse por fim àquele amor que só trouxe dor e sofrimento tanto para o garoto como para todos os que lhe queriam bem...ofereceu à família de Dalila um vida melhor à garota se ela fosse com ele para estudar na Europa e se tornar alguém na vida, e ficasse bem longe de Epifânio. Quem sabe um dia, voltaria ao Brasil numa nova situação. Mesmo sem querer ir...ela foi...era o sacrifício que faria em favor de Epifânio permanecer junto aos pais e amigos e a todos que o amavam...ela sentia no coração que ele ficaria melhor aqui...e sem ela. A menina foi aos prantos como se fosse rumo à morte. O jato traria os médicos e os equipamentos...o velho parecia não medir esforços para ajudar o menino e deixá-lo livre daquela coisa do coração...o amor. Chego a pensar se aquele homem sabia o que era amar.

Na manhã seguinte o céu trovejava e relampejava, parecia querer lançar uma tempestade daquelas, mas não caia chuva, apenas trovões e raios...a princípio tímidos. Seu Sabá e Dona Ninita chegaram na charrete do sítio para visitar o menino que tanto admiravam e que havia salvo a vida de seu neto Mário Alberto, que para nós era apenas...Camarão.

A tempestade de raios apertou, os trovões se intensificaram, a chuva começou cair e não era qualquer chuva, era realmente torrencial de dar medo até em bagres do rio. Os médicos de plantão autorizaram nossa entrada para vê-lo na UTI. Agora eu já não sabia se queria que ele acordasse, afinal, descobriria que Dalila não estava mais aqui e que nós nada fizemos para deter o avô de Ankie. Não havia nenhum outro paciente naquele lugar, só o guri que parecia mais desbotado do que era, de tão pálido que estava...deitado...olhos fechados...inerte...parecia morto....estava morto....todos em silêncio...velando-o...MH perguntou se alguém sabia rezar...ou orar....Sobrancelha disse que sabia dizer o “amém”...Guepardo sabia começar o “pai nosso”, mas só ia até o “santificado seja o teu nome”...não ia muito longe não....sugeri que tocássemos em seu corpo e pensássemos em Deus e em coisas boas...sei lá...na hora pareceu meio ridículo, mas....foi o que fizemos...tocamos seu corpo...um nos pés, outros nas pernas, outros nos braços e eu....uma mão no coração e a outra no cabelo loiro daquele preto feio.....ele foi tocado pelos valentes.....os seis....   .........os seis valentes....foi tocado pelos amigos... e....    ........de repente seu corpo começou tremer e ter espasmos involuntários, era estranho vê-lo se debatendo ainda como morto...gritamos pela enfermeira, que veio correndo junto com o médico e já foi nos expulsando de lá. Não sabíamos bem o que estava acontecendo, mas pela correria e gritaria na UTI o lance era sério. Passaram por nós no corredor alguns auxiliares com um aparelho que mais tarde vim saber o nome ...desfibrilador...nem imaginava para que servia, mas levaram aquele troço correndo para a UTI onde Epifânio estava. Não me contive e abri um pouco a porta e vi o médico em cima de meu amigo empurrando o peito dele pra baixo seguidamente...pensei: “Que merda é essa? Tá tentando matar o moleque?” Cara de aborto chegou com outras pessoas e nos levaram para fora do hospital, a gritaria continuava e ainda não entendíamos o que estava acontecendo. Ora se Epifânio começou a se mexer era porque estava saindo do coma...ou não?

O médico veio falar com a família do garoto...deu a notícia que tanto não queríamos saber...Epifânio estava morto...deu-se um berreiro desesperado de todos os adultos e...dos valentes também...os meninos se abraçaram em grande choro...   aquela manhã parecia noite de tão escura que estava   ...a natureza estava sentindo a morte de Epifânio... o céu chorava enormes gotas de chuva...   ...   ...............Deus chorava.

Eu não conseguia entender, não conseguia chorar, parecia estar em transe, minha mente não concebia aquela morte, não acreditava que Epifânio, o moleque cheio de vida que conhecíamos estava morto...morto....não podia ser real aquilo tudo...lembrei das palavras de 213...a cachoeira do profano, o lugar onde os macumbeiros faziam oferendas e sacrifícios de pequenos animais e para quem o lugar se chamava “cachoeira das almas”...Epifânio não gostava quando íamos lá e víamos galinhas mortas e outros animaizinhos mortos, mas não mexia em nada e não nos deixava mexer também...respeitava...lembrei do caldo que o lôro levara daquelas águas ao ponto de sair nu delas...comecei a ficar nervoso, não poderia desistir assim de Epifânio, os médicos tentaram o que puderam...e nós? Os outros continuavam chorando descontroladamente...assobiei bem alto “Fiiiiiiiiiiiiiii!!!!!’...viraram pra mim chorando muito...e como não me viram chorar...pararam por um instante....meu coração estava acelerado, as pernas tremendo, estava todo arrepiado e com cara de ...de....sei lá...estava fora de mim...olhei fixamente para cada um e virei o rosto em direção à porta da UTI...ouvíamos os gritos, mas não mais pertencíamos àquele lugar...àquele momento...àquela morte......a chuva caia forte...os raios e trovões aumentaram...a energia faltou e num clarão de um raio que rasgava os céus e se mudava do oriente ao ocidente, vi pequenos olhos brilharem...os valentes entenderam... tínhamos que fazer uma última tentativa....nada falei...não precisava...Camarão e Sobrancelha do capeta correram para buscar a charrete de seus avós, Codinome 213 providenciou uma maca com rodinhas, MH e eu entramos na UTI para sequestrar o corpo de Epifânio...o corpo de nosso amigo...nosso irmão....saímos daquela sala ainda no escuro e nos guiando apenas com os clarões dos relâmpagos...quando chegamos ao salão de entrada do hospital a cena que vimos nos assustou sobremaneira...Guepardo acuou todas as pessoas que porventura pudessem querer nos deter, com o estilingue esticado até o toco, apontando na direção de cara de aborto que não se atreveu a sacar da arma...a charrete estava em frente, o céu desabava em água e raios...deitamos o corpo de Epifânio no soalho da carroça e partimos rumo à cachoeira do profano...olhamos pra trás e Guepardo continuava apontando o estilingue, só que agora na porta da frente do hospital...paramos a charrete e gritamos por ele que correu e saltou pro carro...Mário Alberto gritava com o cavalo que parecia Pégasus, com as asas abertas trotando o vento...em pouco tempo chegamos àquelas águas e nos lançamos com aquele corpo inerte na corredeira que pela força da chuva estava muito forte...gritamos com Epifânio...”ACÓÓÓÓRDAAAA!!! ABRE OS OOOOLHOS LÔÔÔROOOO!!!!”...Epifânio estava na água...os valente estavam na água....de repente vimos um raio em forma de flecha furar o caudaloso igarapé “tchuuuufff!! E uma enorme descarga elétrica nos lançou longe...   ...   ...todos    ...  ...   ...inclusive Epifânio.....ficamos atordoados....levantei com dificuldade e vi que acontecia o mesmo com os outros....olhamos para a margem mais distante e....Epifânio estava em pé apoiando-se numa pedra e nos olhando....a chuva não permitia visualizar com nitidez, mas parecia não estar só... havia um guerreiro indígena segurando  arco e flechas com ele....sumiu...nos aproximamos dele e o ouvimos dizer com raiva:

Que porra é essa???? Estão ficando doidos é?...Estão querendo me matar?

Hahahahahahaha ele voltou....Epifânio está vivo....a alegria tomou conta de todos!

Por Ricardo Serrão

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Epifânio Augusto em: Diferentes, mas iguais.

 
Capítulo XIV



Diferentes, mas iguais.

 

A luta de nosso amigo continuava, e as pessoas já não acreditavam que ele conseguiria sair daquele estado vegetativo. O discurso dos médicos que o acompanhavam esfriava mais a cada dia. Não falavam mais em retorno do jovem do coma, tampouco faziam qualquer menção à esperança de uma vida normal, caso voltasse. O fato é que entre nós não havia desesperança, só havia expectativa da hora em que ele acordaria e sairíamos juntos para fazer nossas artes pela cidade e aporrinhar alguns adultos que não gostavam muito de nós. 213 chegou a sugerir que retirássemos o garoto do hospital na calada da noite e o levássemos até a cachoeira do profano e déssemos um mergulho com ele para ver se acordava dessa situação, afinal, aquelas águas conheciam muito bem aquele corpo, vestido ou despido nada era novo para aquela cachoeira em Epifânio.

Um dos seguranças do hospital ficou nosso amigo de tanto que conversávamos com ele, multi-homem o apelidou de ”Cara de aborto” (dá pra imaginar a beleza dele não é?), andava com uma arma no coldre, não sei pra quê, quem iria querer assaltar um hospital?

Não parávamos de lembrar das histórias vividas com Epifânio, como no dia em que chegamos à casa de MH, chamamos e ninguém apareceu. Rodeamos a casa e fomos por trás, estranhando o fato da porta dos fundos estar aberta e ninguém aparecer. Estávamos apenas Guepardo, eu e Lôro...entramos em silêncio como que desconfiando que havia algo errado na casa e qual não foi nossa surpresa ao encontrarmos MH abraçado no quarto da mãe com André Giovanini, um garoto da escola que todos sabiam gostar de meninos, e de quem muitos tiravam sarro por essa preferência sexual do guri, menos Epifânio. Nós mesmos não gostávamos de nos enturmar com ele, nem de falar com aquele afeminado, mas falávamos por respeito, e agora, víamos MH...fazendo...sabe-se lá o quê com ele no quarto da mãe, abraçados, sozinhos....será? André saiu correndo quando nos viu e Manelzinho começou a gaguejar, tentando se explicar, que não era nada daquilo que estávamos pensando e coisa tal...e...nada....guepardo foi logo aloprando: “Viado, tu é viado Manel, sempre desconfiei de ti, viadinho da porra!!! Não vai mais fazer parte dos valentes, não merece andar mais com a gente seu arrombado de merda!” . Carlos Magno estava de fato com raiva e com nojo daquele que até minutos atrás era amigo de todos...eu confesso, naquele momento fiquei muito decepcionado com MH, não imaginava que ele gostava de homens também...Carlinho não parava de xingá-lo, prometendo até porrada nele, de repente saiu correndo aos berros de que iria contar aos outros da turma e que logo MH seria expulso por todos os Valente. Manelzinho sentou aos prantos no colchão velho dos pais dele, as janelas estavam fechadas, o quarto estava meio escuro, a luz que entrava era das brechas da parede, apesar de ser pouco mais de meio dia, hora em que geralmente sua mãe levava o almoço do marido no serviço. Apesar de toda a situação, Carlos Magno foi cruel com ele...muito cruel com o amiguinho...Epifânio nada disse, mas não ficou nada feliz, a cara era de muita decepção...em silêncio ficamos ouvindo o choro de MH...choro de vergonha pela descoberta e de tristeza pela expulsão dos valentes, sabia que não poderia mais andar conosco, que teria que responder quando perguntassem porque não era mais da nossa turma...Epifânio se aproximou da cama...sentou ao lado do guri que continuou de cabeça baixa chorando...olhou em minha direção e na da janela...entendi...abri o janelão e a claridade do sol adentrou no recinto...perguntou a MH sem se dirigir diretamente a ele: “É isso que você quer Manel? Se agarrar com garotos?”...quando Manel levantou a cabeça e ia responder Epifânio continuou sua fala: “Manel, a resposta a essa pergunta não é importante pra mim, mas sim pra você...a decisão que tomar a esse respeito hoje terá conseqüências para o resto de sua vida...mas de SUA vida...lembre disso...de SUA vida. Quanto a mim...bom...somos amigos...e nada vai mudar isso, e se alguém me apelidar por sua causa não terá problema, ainda assim seremos amigos, pois sei que jamais faltará respeito entre nós parceiro, e quanto ao Carlinho, resolveremos isso quando estivermos todos juntos...agora vamos encontrá-los”. MH tentou dizer que não queria ir, que estava com vergonha dos outros, mas Epifânio não permitiu que desistisse de encarar a turma...”Se não vier, não terá mais o respeito dos outros...precisa mostrar que continua sendo o mesmo, apesar da diferença, você é igual a nós”. Chegamos ao buritizal onde nos encontraríamos para a arte do dia e lá estavam Guepardo (Carlos Magno), Camarão (Mário Alberto) e Sobrancelha do capeta (Paolo), todos de cara amarrada...Carlinho já espalhara o ocorrido.

A chegada foi em silêncio, os demais foram logo perguntando o por quê de MH está ali com a gente. MH nada falou, Guepardo recomeçou os xingamentos de bicha, viado, boiola, fresco, traidor...quando ele usou esta palavra, traidor, Epifânio interveio: “Traidor? Como assim traidor Carlinho? Por que traidor? O que foi que você viu que o leva agora a chamar MH de traidor? Você o viu fazendo o quê?”... Carlos Magno retrucou a pergunta de Epifânio: “ Ora ele estava fazendo sacanagem com aquele gayzinho do André Giovanini no quarto dos próprios pais, você viu Epifânio, valente também viu”. Epifânio: “O que eu vi foi um amigo muito cruel tentar destruir o espírito de outro amigo humilhando-o com palavras duras de quem é incapaz de perdoar aquilo que, em seu conceito, é considerado falha grave...o que vi foi a tentativa desesperada de um amigo para se ver livre da vergonha que um de seus amigos poderia lhe causar com sua preferência sexual...isso foi o que vi Guepardo...vi também o amigo humilhado sem forças para se defender de sua crueldade, por encontrar-se numa situação não convencional...forças essas que um dia foram usadas em seu benefício Carlos Magno, lembra? Quando você caiu do cajueiro do Neco e os cachorros estavam lá embaixo, quem pulou depressa para chamar a atenção dos cachorros que saíram em perseguição a ele enquanto você subia amedrontado na árvore novamente? Quando sua mãe ficou doente, e teve que tomar aqueles remédios que fizeram o cabelo dela cair todinho e morria de vergonha de sair à rua, até mesmo para ir à igreja ou à feira comprar mantimentos para casa,e não tinha forças nem para levantar da rede para lhe fazer comida, a ti a teu pai, quem foi o primeiro a rapar toda a cabeça em solidariedade a ela? Coisa que nenhum outro de nós, nem mesmo tu, foi capaz de fazer por ela.... E quem ia lá na tua casa fazer tua comida moleque?” ...Epifânio foi ficando nervoso... “ Quando tu se apaixonou pela Amandinha do Areal, e não sabia falar nada pra conquistá-la, nem se vestir direito sabia, quem foi que escreveu aquelas cartas de amor pra ela em teu nome, aquelas mesmas cartas perfumadas, e agora sabemos porque eram tão perfumadas, te fizeram passar bons momentos com aquela menina moleque mal agradecido...e quem foi contigo lá no atacadão do norte escolher as roupas que combinariam com o estilo do poeta que escrevia pra ela, na noite da tua conquista? já pensou se eu fosse agora lá na casa dela e dissesse que tu não teve capacidade de escrever nada daquilo e quem escreveu foi Manelzinho, e quem te vestiu foi Manelzinho???” Com que cara tu irias ficar quando a encontrasse pela rua?” Carlos Magno sentou num tronco caído, os outros que estavam inclinados a tomar partido por Guepardo murcharam e abaixaram a crista e também se acomodaram pelo chão enquanto Epifânio finalizava seu discurso...”Sou capaz de lembrar ajuda de MH a cada um de vocês, e aquele que está se achando melhor que ele, que atire a primeira pedra e eu juro...atirarei a segunda nele e eu mesmo o expulsarei da turma”...todos de cabeça baixa....em silêncio....”Se não somos capazes de respeitar as diferenças que nos unem, seremos mais incapazes de observarmos e mantermos em rédeas curtas as igualdades que nos separam uns dos outros“...Epifânio se aproximou de MH que estava sentado e levantou o amigo pelas mãos....abraçou-o....e deu-lhe um longo beijo na maçã do rosto....depois cada um de nós o abraçou e beijou...mas Guepardo...se aproximou e....mais envergonhado que MH ao ser flagrado em situação suspeita...disse: “Me perdoe...fui um idiota meu amigo...amo você”...e ambos chorando se abraçaram... e todos se abraçaram num fraternal abraço de amigos.

Epifânio não era a favor do homossexualismo, nem era contra, apenas não gostava de julgamentos injustos e preconceituosos sobre aqueles que tão somente faziam escolhas diferentes das que fazíamos. Qualquer que fosse a decisão tomada por alguém, seria respeitada por nós, ainda que não concordássemos, a não ser que o resultado de tais escolhas fossem ferir ou maltratar alguém, mesmo que não fosse ninguém do nosso círculo de amizade ou familiar. A injustiça e a intolerância não faziam parte do nosso dia a dia, e quando um de nós se mostrava inclemente e austero com outra pessoa, Epifânio sempre dava um jeito de nos mostrar outra maneira de lidar com aquilo...sempre uma maneira melhor.

Epifânio gosta de gente.

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Epifânio Augusto em: Bullying


Capítulo XIII

Bullying

Já era o oitavo dia em coma e meu amigo não dava sinais de melhora, nem mesmo os médicos sabiam o que estava acontecendo com ele, pois o quadro clínico não era próprio do coma, a hemorragia cessara, a febre cessara, a medicação fora aos poucos  sendo suspensa, mas o garoto não voltava, pelo contrário, parecia estar cada vez mais...morto...Nos poucos momentos em que nos deixaram vê-lo pelo vidro da porta, tive a impressão que seus olhos estavam agitados por trás das pálpebras como que ...novamente....em luta com um oponente feroz e de extrema força...quiçá um...   ..tipo...   .....gigante, mas nada dele acordar...
As pessoas acamparam em frente ao hospital, todos torciam por Epifânio, uns crentes oravam, umas senhoras carolas rezavam o terço, tinha até um pai de santo com uma turma no batuque...  ...hum...sei não....   ....tá estranho tudo isso. Comecei a ver pessoas que nem conhecíamos, que souberam da luta do garoto pela vida e da turma dele que não arredava o pé de perto do amigo. Banhávamos nos banheiros das casas daquele bairro, as pessoas abriram suas portas pra nós...mesmo “morto” Epifânio fazia com que nós nos tornássemos o centro das atenções.
Até o pequeno Pedrinho e o Natan, protagonistas de uma das muitas aventuras de nossa turma, estavam lá.
Um dia estávamos sentados no coreto da praça espiando o movimento na escola pertinho...Pedrinho, que era bem mirradinho, bem magrinho, quase esquelético chegou chorando e foi direto falar com Epifânio:
‘-Não agüento mais Epifânio, você precisa me ajudar...o Natan da outra sala não para de mexer comigo, ele é muito maior que eu e fica tirando sarro da minha cara, bate na minha cabeça, toma meu lanche, e nem quero falar nada pro meu pai porque ele vai querer tirar satisfação com o pai dele que é outro maceta e vai acabar tendo briga...e meu pai vai apanhar. Outro dia o pai dele veio buscá-lo de moto e ele bateu na minha cabeça e disse: Esse é o moleque que te falei pai, ele que paga meu lanche! O pai só riu, mas sabia que ele me tomava o lanche ou o dinheiro”.
Ficamos irados, sabíamos quem era o garoto e realmente ele era bem grande na frente do Pedrinho, mas o pai saber que o filho é encrenqueiro, que rouba o dinheiro dos mais fracos na escola e não fazer nada...ah!!! mexeu com Epifânio...sim...mexeu...Ele abraçou o guri que soluçava e disse:
‘-Pedro...chore, mas chore muito, e não esqueça dessa dor e dessa raiva que está sentindo hoje, não esqueça esse sofrimento que alguém maior que você está lhe causando, porque se esquecer, amanhã poderá ser você a causar mal a outro menor que você, ou mais pobre, ou mais feio, ou até menos homem, e se assim acontecer, você será o menino mal que hoje te machuca. Vamos resolver isso...juntos...tá bom?”
O garoto anuiu com a cabeça afirmativamente, agora mais aliviado.
Dois dias depois, a notícia na escola era que uns garotos do bairro mais distante da cidade estavam querendo saber quem era Natan da escola onde Pedrinho estudava, que souberam que ele andou falando mal das garotas da turma deles e que iriam quebrar o garoto na porrada, e que viriam na sexta feira à escola.
Pronto!!! A escola ficou em polvorosa, os pais foram pra cima da direção cobrando segurança, a direção chamou os pais do menino pra saber o que realmente estava acontecendo e em último caso, se necessário, iriam chamar a polícia. O pai do menino já chegou chegando, dando berros no filho, querendo saber o que ele tinha feito de errado, o guri só chorava e dizia que nada, que não tinha feito nada nem dito nada, e nem conhecia esses caras...Ficamos preocupados também, mas Epifânio disse que não iríamos nos meter...ele que se virasse sozinho.
Sexta feira chegou...a escola estava cheia de pais na frente, na hora da saída, a diretora estava do lado de fora, com alguns professores também, e o pai do Natan estava todo estufado por ali...gritava: -Quero saber quem vai se meter com meu filho...vai ter que me encarar primeiro!
Epifânio sentou no seu cantinho de observação, lá.... quietinho...ficamos mais afastados, mas juntos, e não muito longe do lôro...observando a movimentação...mesmo os pais que já estavam com seus filhos sob sua proteção não arredavam o pé da escola, queriam ver no quê aquilo ia dar.
Uma bicicleta apontou no canto da rua...uma bicicleta vermelha, com as rodas niqueladas...uma garota montada...uma garota bem bonita completava aquela bicicleta...um silêncio tomou conta da multidão...ela rodou até bem perto...parou a uns 60 metros de distância de todos...estava com shorts de lycra que delineavam suas belas coxas...me encantei daquele belo exemplar da juventude feminina...voltou e sumiu na esquina...o burburinho foi geral...Ahhhh!!! vamos embora!!! Alguém gritou...quando....a garota apareceu novamente na esquina...e...segundos depois...uma horda de ciclistas...uns 15 garotos e outras tantas garotas...pararam lado a lado...gelei...os valentes recuaram...aos poucos fomos nos aproximando de Epifânio...com medo....as mães que já haviam pego seus filhos tomaram seus rumos, os professores entraram na escola...a diretora...idem...a menina que chegou primeiro apontou para Natan que estava junto ao pai...só ficaram os dois no centro da rua...o pai não tinha mais ação...não ia adiantar correr...a vergonha seria maior...o menino começou a chorar e tivemos a impressão que o pai também...aquele que parecia ser o chefe daquela turma de ciclistas era grande, forte, moreno queimado de sol, e tinha uma enorme cicatriz de facada no rosto...era aterrador....seis deles desceram de seus camelos e se dirigiram para os dois que sobraram da multidão...pai e filho...olhei para Epifânio que não esboçava nenhuma reação...o garoto estava chorando muito abraçado à barriga do pai que nada falava, apenas esperava...a turma chegou perto e parou...ninguém se atrevia a ajudar aqueles dois encrenqueiros...ninguém gostava mesmo deles...mereciam a surra que iriam levar...de repente...chegando rápido por trás, também de bicicleta...Pedrinho...o sequinho....saltou da bicicleta, fazendo barulho como se jogasse a magrela ao chão...passou por Natan e seu pai...deixou seu braço esquerdo esbarrar levemente no garoto que chorava que imediatamente olhou pra saber quem estava ali também...e...se surpreendeu com Pedrinho se colocando em posição de guarda na frente dele e de seu amedrontado pai, mirando aquela galera do outro bairro com olhar de tigre...um olhar que bem sabíamos quem lhe ensinara...era o olhar de treinamento...Olhei para trás e Epifânio agora estava em pé...de braços cruzados em riste como uma estátua, olhando com cara de mal para todos ali...se fizessem qualquer coisa contra Pedrinho a porrada seria inevitável e sangrenta....gelamos...todos os valentes ficaram nervosos...os ‘outros” riram da postura de Pedrinho...ele olhou para Natan...para seu pai....e disse em bom tom...todos ouviram: ‘-Sozinhos vocês não estão”. Epifânio saltou da mureta e nos olhou...nos olhos...olhou para cada um individualmente...(me arrepio só de lembrar da cena) ...aquele olhar era a nossa deixa...se há injustiça...se há desequilíbrio...vamos equilibrar as forças....quando nem mesmo o pai do garoto que bulinava Pedrinho tinha esperança de sair daquela fria sem levar muita porrada...eis que em seu flanco direito aparecem “MULTI-HOMEM, CAMARÃO E SOBRANCELHA DO CAPETA...e em seu flanco esquerdo “GUEPARDO, CONDINOME 213 E EU” ...Epifânio passou por nós e se colocou ao lado de Pedrinho com os braços cruzados e o peito estufado...olhou pro moleque arretado e perguntou: Tá afim de dar umas porradas em alguém hoje Pedrinho? ...”-tô meeermo!!!” disse o pingo de gente...”-mesmo sabendo que pode apanhar também moleque?”....” nunca tive medo de porrada Epifânio...tenho medo é de bater muito e o outro ficar muito machucado e morrer”...(caralho, esse menino era do mal mesmo!!)...a outra turma ficou em silêncio por alguns minutos...nos olhando...o grandão olhou com ira para Epifânio e Pedrinho e...deu as costas, montou na bike e se foi com seu povo.
Epifânio tocou no ombro do magricelo e, na frente do seu algoz bulinador, disse: “Você é muito corajoso...no futuro fará parte dos valentes”. Pedrinho virou-se, passou por Natan, que estava com seu pai e disse: -Sempre que estiver em apuros, lembre-se...pode contar comigo...pra bater ou pra apanhar estarei do seu lado amigo!”.
Não preciso entrar em detalhes....eles não chegaram juntos à toa no hospital...dali em diante não houve mais bullyng na escola, nem de Natan nem de ninguém contra os mais fraquinhos...
Até onde entendo, bullyng nas escolas só são causados por crianças que são reprimidas ou violentadas tanto física como emocionalmente por pais violentos, e de pouco estudo, o que se reflete nas ações dos filhos.
Dias depois, Epifânio e eu fomos convidados para um churrasco na casa de um parente de Dona Cristina...e lá estava o moreno queimado de sol com a cicatriz na cara...era primo de Epifânio....se abraçaram e me contaram tudo.
Eram quase 16 horas do oitavo dia em que ele se encontrava naquele estado quando seu Ardjan chegou e de seu carro desceu o maior gigante que já apareceu por nossa cidade. O homem era maior que seu Ardjan...também muito vermelho, forte e loiro...era um senhor de pouco mais de cinqüenta anos, estava de terno e gravata, parecia guarda costa de presidente americano...era o avô de Ankie...pai de Ardjan...conversou com seu Otacílio que não sorriu pra ele, e com Dona Cristina, que também não sorriu, mas não o hostilizou...conversaram e Dona Cristina nos olhou com uma cara de angústia...se aproximou, só Dalila e eu nos levantamos, os demais permaneceram sentados na sarjeta olhando pra cima aquele gigante de dois metros de altura...ela disse:
“-Meninos, esse é seu Gertjan, avô da amiguinha de vocês Ankie...e pai de Ardjan...ele veio buscar Epifânio para levar para Europa...lá terá melhor tratamento...
Imediatamente todos se levantaram e... nos colocamos entre ele e a porta de entrada do hospital....Dalila se pôs na frente do homenzarrão e numa postura de mamãe ursa privada da cria ...com os olhos arregalados, cerrou os dentes e disse rispidamente:

“- Tente moço!”


Por Ricardo Serrão.

Deusa Arte.

MÚSICA Já escrevi sobre a presença da arte nas nossas vidas. “A arte é assim, alguns gostam, outros nem tanto, outros são distantes, mas tod...