domingo, 9 de novembro de 2014

Epifânio Augusto em: Anjo Negro

Capítulo VI

Anjo Negro

Na casa de Dona Beth tinha bingo toda semana. Às vezes bingavam um frango de quintal, um pato, um porco, já houve até um bingo de uma vaca leiteira doada por um fazendeiro candidato a cargo público, mas nada de muito valor, pois a comunidade era bem pobre e a cartela era equivalente a um refrigerante pequeno, de garrafa. Depois do bingo rolava aquela festança e a bagaceira ia até o sol raiar. Tantas foram as vezes em que abriam uma porrada e alguém ficava muito machucado, mas não o suficiente para acabar amizades ou pra faltar no bingo da semana seguinte. Chego a pensar que a pancadaria fazia parte da diversão, era uma forma dos homens medirem forças na frente das donzelas de...de....bom...elas tinham entre 12 e 120 anos, rsrsrs, eita donzelada arretada e pra frente!!!! Era nessa hora que o macho se exibia e mostrava pra fêmea que o amor ainda imperava em seu coração, afinal, amar não é só beijar, abraçar, e fazer saliência, amar também é mostrar que é macho e tem força o suficiente para proteger a amada...mulher gosta de se sentir protegida...gosta de saber que seu homem ainda é bom de porrada.
As senhoras se vestiam como quem vai pra festa com aqueles vestidos floridos, feitos por suas próprias mãos ou comprados do marrete mensalista vendedor de redes e fazendas estampadas. Os homens em geral, com a calça filha única, a camisa de botão abertos até a altura do peito, os mais letrados até conseguiam encomendar pelo marreteiro, um panamá, mas a maioria ia mesmo era de palha.
Nós não podíamos ficar para festa depois do bingo, só os adultos, mas sempre dávamos um jeito de ver a festa e o porradal de costume. Epifânio era exímio dançarino e por isso o único convidado a permanecer após a premiação. A mulherada se amarrava em ser sacudida pelos braços do neguinho, e o bicho tinha um rebolado na bunda que deixava a velharada maluca, arqueava levemente o copo pra frente, punha uma das mãos na barriga na altura do umbigo, fazendo um ângulo de 90° graus com o antebraço, o outro braço estendido pra cima, inclinado pra frente, com a palma completamente aberta, saía gingando pelo salão, como um pato que balança o rabo, parecendo deixar a dama com quem dançava abandonada em virtude de sua vaidade de querer ser espiado por todos os presentes, o que às vezes causava certo ciúme aos homens, e voltava em atitude de reverência à parceira como que dizendo “todas me querem, mas por agora, só você me tem”...(ah nego sedutor!).
Saímos dali, deixando o exibido pra trás e fomos à casa de Mário, que ficava a quase uma hora de caminhada pela estrada de barro, num sítio onde morava com seus pais e avós, soubemos que estava dodói. Passava das 10 da noite, nossos pais haviam autorizado passarmos a noite no sítio de Dona Ninita, vó de Mário Alberto, soprava um vento bem forte, estávamos guepardo, sobrancelha, 213, multi-homem e eu.
Guepardo tinha esse apelido porque era mais lento de nós, um dia, enquanto caçávamos queixada pra mantimento das famílias, Epifânio teve que livrá-lo de uma delas, das grandes, enraivecida, que correu atrás de Carlinho e ele, aos prantos não conseguia se distanciar do porco do mato, pois era lento demais correndo, Epifânio fez a mira na 22, enquanto todos gritavam “coooorreeeee que ela vai te pegar” o loro acompanhava os movimentos do suíno silvestre como se não houvesse mais nada nem ninguém por perto....um olho fechado, dedo no gatilho, o coração em consonância com a respiração tranqüila, quase de quem está em sono alfa, calmo, sereno, e...”BAM”...em minutos levávamos a caça pra casa, tiro certeiro, do lado direito da cabeça. Não era diversão...era comida.
Carlinho, envergonhado pelos gritos de medo que soltou, foi se deixando ficar pra trás na trilha, Epifânio diminuiu o passo, todos fizemos o mesmo, e....enquanto ríamos e bagunçávamos com o choro do guri, neguinho parou em frente ao menino assustado, pegou-lhe pelos ombros, e rindo um riso fraternal disse: “Ficou com medo né pivete? fique assim não... também tive medo de que aquele bicho lhe ferisse....também tive medo de errar o tiro e você ser mordido... ter medo é normal e saudável, faz com que tomemos mais cuidado e fiquemos sempre atentos...não chore, a partir de hoje você será nosso guepardo...que anda é claro...mas guepardo... e quem nos ouvir lhe chamando assim pensará que você é o mais rápido de nós” e abraçou Carlinho que agora não mais chorava, mas estufava o peito pelo novo nome...(Epifânio sabia como ser líder...como ser amigo...como ser ...irmão).
Sobrancelha era o que mais odiava seu apelido. Sempre que começávamos falar pra alguém sobre essas alcunhas, ele pedia pra gente parar...”paraí gente, paraí!!!”. Uma vez chegamos na casa dele e o garoto tinha um ferimento em forma de V no meio da testa, unindo de um lado e outro as sobrancelhas.
-Que porra é essa mano?!!! Perguntamos quase em uníssono. Ele começou a falar que tinha caído e que já tava melhor e coisa e tal quando seu tio Abelardo entrou na casa rindo alto e perguntando:
“-Ainda vai tentar mexer com a mulher do bode Paolo? Aprendeu a lição menino?”
Olhávamos pro tio dele... confusos...e todos...ao mesmo tempo...voltamos o olhar pro tarado sexual do Paolo e Epifânio perguntou:
“-Mininu” de Deus, que porra tu tava fazendo com a cabra? Tu tá de novo com essa história de querer comer os bichos? Tu já matou a galinha da vovó, a pata de dona Candinha, até o cachorro pequenez do seu Natanael tu já tentou pegar...caralho garoto que é que tu tem?
-Ai Epifânio eu num sei, num sei o que dá em mim...eu fiquei olhando a cabra andando pra lá e pra cá...naquela posição...parece que tem um capeta no meu couro que fica falando no meuzovido...”olha essa bundinha!” “olha essa rachinha!” a culpa é dele mano, é dele....eu só queria chegar perto e pegar pra saber se era quente como a da novilha...
-E tu já pegou na de uma novilha Carlos Magno? Perguntou incisivo Epifânio...-Tu é doente rapá... doente!!!! O que tu fez com a cabra? fala logo.
-Nada loro, ela nem deixou eu chegar perto e o bode foi mais rápido do que eu...me acertou por trás que fui parar de cara na cerca, bem na furquilha entre dois pregos, quase fiquei cego galera...ó! e mostrava onde os pregos tinham acertados no meio dos olhos...hahaha, Epifânio não demorou nem dois segundos, pra marcar na alma o que aquele bode tinha marcado na testa....”-tu merece essa sobrancelha do capeta” deveria ter ficado era cego dum olho menino endiabrado” cuidado com os chifres dos touros por aí!
Assim nasceu o “sobrancelha do capeta”.
Chegamos ao sítio do Mário Alberto debaixo de muita água, raios e trovões. Os pais do menino não estavam, tinham ido visitar uma prima que tinha parido e levaram o único cavalo do sítio, com o qual puxavam a charrete quando iam à vila em família. Só estavam Dona Etelvina e seu Sabá, avós dele. O menino ardia em febre, de pele branca, estava muito encarnado, tremia, tinha espasmos, convulsões, revirava os olhos e arqueava o corpo no fundo da rede involuntariamente. Os trovões e raios não davam descanso, o garoto gemia, balbuciava palavras desconexas, chamava pela mãe, os avós, já velhinhos não sabiam mais o que fazer, já tinham tentado todos os remédios caseiros que conheciam e a febre não cedia.  
Nós cinco estávamos preocupados, principalmente quando ouvimos Dona Ninita (apelido de D. Etelvina) dizer pro marido: “-Meu velho, vamos perder o menino...ele não vai agüentar até de manhã...vai morrer”. Seu Sabá que não parava de olhar o tempo pela janela virou-se pra nós e disse o que todos tínhamos no coração, mas nos faltava coragem de falar:
“- Rapazes, se não quiserem enterrar o amigo de vocês pela manhã...corram...e chamem Epifânio...ele saberá o que fazer”
Meu Deus, aquele ancião nos colocou uma carga muito pesada, fomos pro passeio da casa, os raios rasgavam os céus como se Deus tirasse retrato da terra, as árvores balançavam com tanta força que ouvíamos o estrondo de algumas caindo no meio da mata, nenhum de nós tinha coragem de enfrentar aquela tempestade, ainda mais na estrada com floresta de um lado e do outro, no escuro...nos olhamos...  ...  ...agora era com a gente...  ... era nosso amigo...   ...nosso amiguinho estava precisando que fôssemos, por apenas algumas horas, os homens mais corajosos que Deus já criou...   ...não falamos muito, sabíamos que nem todos iriam...  ...   ...a tempestade pareceu parar repentinamente... como num sinal divino para que aproveitássemos...  ...eu disse: “-vou eu” os outros quiseram persuadir-me da decisão...mas...já decidira... quando me preparava pra correr a tempestade voltou com intensidade dobrada....as gotas da chuva pareciam querer furar a palha que cobria o barraco... quem sabe Deus quisesse levar o menino pra morar com ele naquela noite? Iria parar qualquer um que quisesse evitar tal ação Dele....   ...  pensei: -Hoje não Deus...hoje não vais levar meu amiguinho....e saí correndo pelo chão de terra encharcado, pesado, difícil até de correr....ouvi os amigos gritarem:
“-VAAAAAAIIIII VALEEEEEENTE!!!! COOOOOORRREEEEEEEEEEEE!”
O vento, as pingos de chuva que mais pareciam pedradas, o barulho no meio da mata das árvores caindo, tudo parecia me castigar, não enxergava nada a um metro de distância à minha frente pela intensidade da chuva...corri...corri...corri como quem corre da morte...corri como quem corre pra vida...e vida de um amigo...mais que amigo...um irmão....Carlos Magno merecia meu sacrifício...na estrada pude notar vários pontos em que havia enxurrada de água no chão, vindas dos terrenos mais altos...nem a cavalo seria fácil chegar a algum lugar por aquele caminho...o medo tentou por vezes me fazer desistir...não parei....não parei até chegar na vila...
Cheguei ao galpão onde a festa começara naquela noite e já não havia festa, as pessoas estavam atônitas com o poder daquela tempestade, ninguém teve coragem sequer de sair dali para suas casas...todos amontoados num canto do salão, espantados...cheguei...molhado...assustado...cansado e fraco...
Os adultos levantaram perguntando o que tinha acontecido...não dei ouvidos...perguntei: Onde está Epifânio?
Antes que qualquer daquelas pessoas dissessem alguma coisa, ouvi atrás de mim, saindo de um canto escuro daquele lugar, uma voz conhecida e que nos aliviava.
“Aqui mano...tô aqui...onde estão os outros...o que aconteceu?”
Contei em detalhes o ocorrido, o cavalo, os pais, os avós, a chuva, a estrada, o menino...a morte...
As senhoras gritaram em histeria, os homens se perguntavam o que poderiam fazer...
Como sempre...Epifânio levou alguns segundos para tomar uma decisão... pegou duas toalhas de plásticos sobre as mesas e enrolou-as ...parecia não haver vento forte, gotas grandes, árvores caindo, estrada escura ou enchente...não pediu ajuda a niguém...era como se o ligassem a um reator...a força vinha, o desejo de ajudar vinha, o instinto de sobrevivência disparava e a coragem...ah a coragem...essa sempre estava lá...
“Olhou-me nos olhos, profundamente e disse: “-BOM TRABALHO VALENTE, VOCÊ FOI UM HERÓI, MAS A NOITE AINDA NÃO ACABOU PRA NÓS...CORRE E VAI CHAMAR O DOUTOR E LEVA ELE PRO POSTO...”
“-Não Epifânio, respondi...hoje não vou te obedecer...vou contigo...você vai precisar de mim...”
“- Tá bom Valente ...então....  VAMOS CORRER”.
Olhou para o grupo de senhoras e deu a ordem...alguém leva o doutor para o posto...agora...
Corremos...corremos como Hermes...voamos sob a tormenta...
Chegamos ao sítio e Epifânio passou direto para o estábulo onde guardavam o cavalo e a charrete, entrei na casa...o menino estava desmaiado...a avó chorava e Seu Sabá, aflito, perguntou pelo loro....Ele veio? –SIM...TÁ LÁ FORA...
Mal acabei de falar e ouvimos o cão gritando lá fora...BOOOORAAAA CORRERRRR saímos e nos deparamos com ele amarrado à charrete, no lugar do cavalo, mandando Dona Ninita e seu Sabá subirem com o menino e se cobrirem com as toalhas de plásticos...quando viu o menino parecendo morto e avermelhado, espantado gritou: Esse camarãozinho vai sobreviver Dona Ninita...eu prometo...
...Era como se nos tornássemos um só quando ele fazia essas loucuras...não tínhamos medo...a força dele nos contagiava...fomos pra chuva e sobrancelha falou: -E nós? O que quer que a gente faça?
“Vão pra trás da charrete e empurrem com toda a força que puderem, levaremos Mário pro posto”...olhou pro céu ... e bradando com fúria mandou um recado....
“HOJE NINGUÉM MORRE NESSA CIDADE...OUVIU? NINGUÉM”
Saímos em disparada, a chuva...o vento...as árvores...o aguaceiro na estrada...a escuridão...os velhos...Epifânio era incrível...quando se tratava de vida ou de justiça...ele não se via...não se notava...via apenas o próximo.
Chegamos no posto, as pessoas da festa estavam todas lá, sem acreditar na cena que viam agora...aquelas crianças...aquele garoto....  ...o médico arrancou o menino dos braços da avó e correu pra dentro do posto...tiraram os velhos...o posto tinha na porta uma janelinha de vidro...Quando entrava, seu Sabá olhou pela janela e o que viu foi cinco garotos exaustos, na chuva, uns escorados na charrete se apoiando, outros de joelho no chão de não se agüentarem em pé...e Epifânio...ainda amarrado ao carro...ereto...com a chuva castigando seu corpo...olhando fixamente para o velho senhor....sem piscar...numa postura de ....Anjo....um Anjo Negro.
Seu Sabá apenas levantou uma das mãos como que dizendo...OBRIGADO...

A chuva parou...a água parou...a morte desistiu...o menino sobreviveu...



Por Ricardo Serrão

Lembram da mera coincidência? Pois é... não esqueçam...continuo pobre.



sábado, 8 de novembro de 2014

Escravo do vício

Não haverá mais segunda feira, nem terça, nem quarta
Não haverá mais reunião de sábado, nem poesia
O vício que me consome, comigo some, na mente vazia
A porta que fecha o quadro, que pinta o quarto, a louça na pia
Não haverá mais segunda feira, nem terça... só quarta

Ainda que só, me sinto em má companhia.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Epifânio Augusto em: Epifania


Capítulo 5

Epifania

Epifânio passou pela sala onde o tio dormia, atravessou o pequeno corredor da casa até a cozinha que ficava nos fundos com porta para o quintal, desceu a escada de madeira, já muito apodrecida, mas não era tão alta, oito degraus, mal feitos degraus, alguns cuja lateral os pregos já não seguravam mais e a queda era iminente.

No quintal, sem iluminação alguma, pôde ver o brilho da Lua e das estrelas por entre as folhas do abacateiro, os pontos das estrelas vistos através daquele emaranhado de folhas escuras, que se movimentavam ao balanço de uma leve brisa, que mais parecia prenúncio de chuva, mas não era, pois não havia sequer uma nuvem a proteger a Lua e as estrelas daquele olhar de criança, pareciam vaga-lumes a bailar. Aquele olhar de criança...olhar de criança...embrutecida criança...olhando fixamente para um ponto a ermo sem contudo observar de fato qualquer brilho...parecia mais um olhar de quem vai à guerra, de quem quer lutar...

Sentou-se ao pé da grande árvore, agora de olhos fechados, como a pensar sobre alguma coisa, os olhos por trás das pálpebras se moviam pra lá e pra cá agitadamente como quem já está em luta...uma luta silenciosa... uma batalha travada na mente...com um oponente poderoso...de repente aqueles olhos de criança se abrem e o garoto se põe de pé e grita:

“-SAI DAÍ...VEM PRA FORA!!!!”

...Desafiava seu opositor a sair de sua mente e vir para uma luta corporal, no braço...(como se fazia antigamente)

-Tá magoado comigo? Tá com raivinha de mim? O que te fiz Deus? O que um garoto pode fazer contra Ti para que tu guardes tanta mágoa assim? POR QUE EEEEEUUUU DEUS??? Tu não tens nada de bom pra mim? Só dor e sofrimento? Meu Pai, meu tio, e agora...ela? (falou o “ela” tão baixinho que só Deus poderia ter ouvido mesmo).

-Me deixa em paz Deus...não quero nada contigo...alguém me disse que rezar era como conversar contigo, era como falar com um amigo...mentiram pra mim...tu nunca falou nada comigo, era sempre só eu que falava...tu nunca estavas lá comigo...   ...  ...eu tô acostumado com teu silêncio, com tua ausência, com tua indiferença...mas ...e ela? (baixinho novamente) tu tens prazer em fazer crianças sofrerem? Sofrerem nas mãos daqueles que deveriam protegê-las? Que tipo de Deus tu és? Não consigo nem dizer VAI EMBORA...tu não tá aqui...não te vejo...não te ouço...não te sinto...não quero mais saber de ti...

Com os punhos cerrados, respiração ofegante, o coração enegrecido, os olhos marejados pela dor de não poder proteger seu amor...    ...   ...cheio de ira...olhou para céu e sem se importar se alguém acordaria, gritou das profundas trevas de sua alma angustiada:

-DEEEEEEEUS ....EU TE .....não completou a frase...e aos prantos  puxou para junto do peito os punhos fechados, curvou o corpo para frente como quem não está agüentando a dor e o sofrimento e ....babando e soluçando descontroladamente falou bem baixinho....quase que inaudível: ...”-protege ela Deus...protege meu amor...por favor”.

Quedou-se...

Longo silêncio se seguiu a esse desabafo...de joelhos ao solo, com a cabeça agora abaixada e as mãos tocando o chão mostrava o quanto estava abatido e o quanto estava perdendo aquela batalha...   ...deitou-se no chão de barro...o vento continuava....as folhas agitavam-se mais agora... o rosto de lado tocando o solo, não tinha mais brilho nenhum pra se ver...adormeceu...

“-Epifânio!...   ...   ...Epifânio meu filho!”

Uma voz forte se pronunciava... forte, grave, mais de uma suavidade sem igual...

Epifânio teve a impressão de ser tocado no rosto...um terno toque...um toque de....pai.

Meio sem entender nada se levantou, limpou o rosto sujo de terra, o peito, a barriga e as pernas, e....parou, sem ver ninguém por perto, confuso...olhou de um lado...do outro...nada...ninguém....

“-Sobe na árvore Epifânio”.

O garoto ouviu a voz novamente, mas sem demonstrar nenhum medo, o que seria natural para qualquer um sentir...menos para Epifânio...ele não tinha medo de nada nem de ninguém...a não ser de vespa e poraquê...

Subiu. Num lance estava no topo do abacateiro, mas...não tinha ninguém lá...   ...de repente sentiu uma presença, uma....   ...   ...tipo...   ...  ...tinha alguém lá sim....tinha sim...ele viu por entre as folhas um brilho diferente, maior, um homem...não estava de branco...nem de preto, nem vestido de cor alguma...estava de.... caramba! Estava vestido de glória, ninguém precisava explicar a Epifânio o que era glória, glória não se explica...se vê...se vive...se tem...se é.

E agora as folhas pareciam abrir caminho para que Ele pudesse se mostrar pro garoto. Era Deus...   ....e Deus era...   ...índio...índio...moreno queimado, nariz largo, olhos profundos e sonolentos, baixinho...gordo...não...gordinho.

-Tu é índio!!!! ...eu sabia!! Exclamou o escurinho.

-Pois é...sou da forma que você sempre soube que eu era...ou sempre quis que eu fosse...-Sua vó conversou com um Capitão da Marinha há alguns dias...vestido com traje de gala...falou de você Epifânio.

-Foi? ...pensativo por uns dez segundos olhando fixamente pra Deus, disparou: -Ela mente às vezes, sabia? Acho que é a idade.

-Pare Epifânio. Não vou entrar em detalhes sobre a conversa com ela. E você? ....Revoltado?

-Não vou repetir nada do que falei...já falei o que eu tinha pra falar...quero respostas agora.

-Calma filho, você as terá, mas antes me permita falar-lhe algumas coisas. Nada me foge ao controle, todas as coisas sugerem uma força por trás, seja viva, inanimada, até morta. Nada se move sem uma força motriz, nada se criou sem a ação de alguma força maior...lembra? “EU”....Tudo o que você viveu com “ela” esteve sempre às minhas vistas, e sob meu controle. (Epifânio pensou: até o pum fedido? Então a culpa não foi dos cajus....foi Dele). Não a trouxe até você sem nenhum motivo, não pense que me alegro com o sofrimento de Dalila, ou com seu sofrimento Epifânio...não sou assim...mas sofrer faz parte do viver, e só sobrevive aquele que consegue suportar as pancadas que a vida dá...que são muitas e por vezes muito intensas e inacreditavelmente doloridas...mas passam...ah passam! Quando você deita e fecha os olhos e começa a falar comigo em seus pensamentos, eu paro o que tô fazendo só para dar atenção às suas palavras...confesso que nem sempre gosto do tom, mas sempre gosto da sinceridade, do coração despido de vaidades e mentiras...Lembra quando você disse: “DEUS É FODA”, lembra? Rsrs sou mesmo Epifânio, mas não de qualquer jeito, sou do jeito que você tinha no coração quando proferiu essas palavras...DEUS É FODA, no sentido de É O MÁXIMO...É TUDO....ELE É...   ...não sou o cara Epifânio....quando você for terminar novamente essas suas loucas verbosidades diga:  “ELE É ...   ....ELE É DEUS”. Não importa em quais circunstâncias Dalila surgiu pra você...ela não entrou na sua vida, ou está na sua vida...DALILA É VOCÊ...ETERNAMENTE VOCÊ. Vocês são o mesmo ser dividido em dois corpos e a MEU TEMPO esses corpos se fundirão e se tornarão um só...e produzirão outro ser...melhor.

-Filho? Perguntou Epifânio num misto de assustado e feliz.

-Você e suas perguntas já tão respondidas. Você de fato é homem.

-Como posso saber que o que o Senhor está falando é verdade? Às vezes chego a pensar que sei mais coisas que o Senhor, e que resolveria alguns problemas de maneira mais acertada. E olha que sou só uma criança.

-Exatamente Epifânio, você é homem e homens, não importa em que idade estejam, são sempre...crianças.

-Ah!...tá!...então tá!....   ...um Deus feminista...só falta ele dizer que as (é cortado abruptamente)

-Exatamente Epifânio, as mulheres evoluem, os homens apenas crescem. Viu como você, apesar de tão pouca idade, tem a ideia de que as mulheres são diferentes? Os homens nascem, crescem, eventualmente têm sorte e acertam, e morrem. As mulheres nascem, evoluem, eventualmente tomam uma decisão equivocada, consertam, e viram as melhores lembranças dos homens.

-Elas não morrem? Tá vendo, sei mais que Tu...já vi umas quatro mortas.

-Pergunte aos homens de suas vidas se estão mortas filho, e verás que todos terão uma boa palavra pra dizer sobre elas....uma boa lembrança.

-Dalila é tão triste que parece morrer a cada vez que...é...o Senhor sabe...não gosto nem de pensar nisso...pessoas que deviam protegê-la...em quem ela devia depositar toda a confiança...odeio cada um deles...tenho desejo de matá-los...matá-los muitas vezes. Eles a destruíram no corpo e na alma. Marcaram-na como quem marca um animal de pasto. E você não fez nada.

-Meu filho, tudo está sob meu controle. Disseste bem, feriram-lhe o corpo e a alma, mas ela tem um espírito forte, vai se reerguer. Cada vez que isso acontece, eu a torno mais forte, mas preparada para tratar outras pessoas que virão para a vida dela com problemas iguais ou similares. Tenha paciência filho meu.

-O Senhor não sabe muito, né? Pedindo paciência a um adolescente....vejo que tantos anos de idade não fez do Senhor lá muito inteligente não...isso prova que de fato os homens são a tua imagem e semelhança...não evoluem.

-Creia, ela é minha benção na vida de muitas pessoas, especialmente na sua lôro   ...e sobre ser inteligente...bom...realmente não sou muito inteligente....SOU DEUS. Você sabe o significado de seu nome?

-Menino lindo? Perguntou Epifânio.

-Hahahaha  Nãããão, claro que não. Você não é lindo, é apenas a metade menos favorecida de lindeza de Dalila, afinal, ela ficou com um bom bocado da beleza de vocês. Muito justo, concorda? Quando você estava no ventre de sua linda mãe, permiti que ela tivesse a visão desse nosso encontro, por isso o seu nome...Epifânio.

-Entendi nada!!!

-Já vou filho.

-Deus...Vou vê-la novamente? Quando? Onde?

-Sim...vai, mas até lá você também precisará ser preparado, e creia, no pilão.

-Se o Senhor permitir, sofro tudo o que tenho pra sofrer ...sofro tudo o que ela tem pra sofrer, só não quero mais que aconteça aquilo com ela.

E Deus secamente respondeu: -Basta!

O galo cantou cedo e Epifânio descobriu que havia dormido no quintal, no chão de barro, e estava sujo...pensou:

-Foi um sonho?

Olhou para o céu azul franzindo a testa com cara de quem já quer arrumar confusão de novo e pensou: -Você não teria coragem de me enganar desse jeito...teria?

No semáforo




No semáforo

No semáforo

Faltavam mais de 100 metros e há muito o semáforo amarelara. Zimpei mas não consegui êxito no intento de atravessar a avenida, pois os adversários motorizados já ameaçavam com vrrruuunnns de cá e de lá, de lá e de cá quase que em sonora sinfonia. Parei o auto, de aros na cara, virei a cabeça para a esquerda e...de repente....lá estava ela...de costas pra mim, morena, mais que morena, morena escura, negra...olha o corpo inerte do companheiro caído na calçada...inerte do meu ponto de observação...o auto...mas certamente ela o via respirar...nada mais que isso...respirar...e o velava, como uma mãe que vela o corpo de um filho caído, abatido por uma bala perdida, perdida de um revolver do governo, sim, um revolver oficial, como sempre acontece, um tiro de soldado PM...mas nada disso...não estava velando um corpo sem vida...estava velando o marido entorpecido até as cuecas, se é que as tinha, por drogas pesada, mas nem tanto, drogas pesadas são para aqueles que as podem adquirir...é...velar o marido é sinal de amor, ou não é? Se fosse eu que lá estivesse ficaria muito feliz se alguém me amasse ao ponto de não deixar as moscas pousarem em mim, ou os cães me lamberem a cara...é amor sim...ou você não gostaria de ter alguém assim se fosse você?


Não conseguia desviar o olhar...os outros passageiros no carro também observavam a cena sem muitos comentários...sem muitos...sem....muitos...tipo...nenhum...a cena não reclamava comentários, não cabia nenhum...olhávamos tão contemplativamente, olhares contemplativos tão profundo, tão mirados, tão sem se desviar que a moça virou rapidamente, e olhou diretamente dentro do carro...não tivemos qualquer reação , fomos pegos em flagrante, constrangidos, envergonhados, mas mais envergonhados ficamos por descobrir que a jovem, que de costas nos parecia só uma menina, agora se nos mostrava uma mulher...de barriga saliente, de quem dará à luz uma vida ....sem sorte...vida sem sorte....vida...quase morte...o tempo estava parado, o semáforo, cruel semáforo, teimava em não nos permitir sair dali, levar nosso vexame para outro lugar, agora era ela quem nos olhava, com um olhar nada fulminante, nada acusador, pelo contrário, um olhar de quem tem um grito no ventre às portas do desespero, louco para ...louco para...tipo...dizer...dá uma moeda aí...a vergonha só aumentava, meti a mão no console do carro e tomando como de assalto todo o dinheiro que tinha, apontei-lhe a nota no momento em que o bendito, agora maldito, ainda bendito...sei lá, esverdeou-se...quanta injustiça daquele tricolor governamental que agora salta do vermelho para o verde sem ao menos pensar que aquela figura, digo, aquelas figuras, mão e filho, almejavam pegar o montante que vos era proposto, os demais veículos, que agora se movimentam não permitiam que ela se aproximasse e os que atrás estavam, buzinavam inquietos, mesmo que de lá pudessem ver o braço estendido pra fora com aquela nota na ponta, mas..aquela mulher, aquela esposa, aquela mãe, aprendera pensar rápido em prol da sobrevivência...joga no chão, joga no chão que eu apanho...pouco importava se um, dois, dez carros passassem por sobre o papel, valoroso papel, o que importava era que naquela noite...naquela noite, não haveria fome, nem para ela, nem para todas as pessoas de seu universo...marido e rebento...abri os dedos...simplesmente abri os dedos e caiu...e me fui, nos fomos...a sensação de dever cumprido tomou conta de mim...estava feliz por ter-lhe dado um momento de alegria...que noite maravilhosa ela teria....quisera eu poder mudar a noite de todas as mulheres que se encontram no mesmo estado, mas não posso...ou posso?...o que sei é que naquela noite haveria pessoas ricas no planeta terra....ela...e eu...eles....e nós...obrigado vida.
Por Ricardo Serrão

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Epifânio Augusto em: A descoberta do amor que dói. E qual o amor que não dói?


Capítulo 4


A descoberta do amor que dói. E qual o amor que não dói?


Passamos toda a manhã roubando caju do sítio de seu Neco, comíamos até que a garganta ficasse travando. Lembro-me bem que naquele dia estavam 213, camarão, eu, e Epifânio trepados num cajueiro bem alto, pegando cada um lindão, vermelhão assim de dar água na boca. Precisávamos ficar sempre quietinhos devido aos cachorros do velho Neco, eram grandes, barulhentos e ferozes, mas nada nos parava quando queríamos alguma coisa, principalmente quando era coisa alheia, rsrsrs, mas naquele dia Epifânio estava mais calado que de costume, era o que estava mais alto na árvore e parecia fitar um ponto muito distante de onde estávamos. Por mais que tentássemos ver o que ele via não dava porque a posição dele era privilegiada pela altura.

-Epifânio? Sussurrei questionando...-Epifânio!! O que tu tá espiando?

Ele estava absorto em seus pensamentos, completamente compenetrado que nem ligou para meu chamado. Falei um pouco mais alto:

-Lôôro!!! O que foi cacete? O que tu tá vendo?

Ele me olhou calmamente e disse:

-É masturboy...(falou em baixo tom sem tirar os olhos do alvo, com uma seriedade de quem pressente que algo de ruim está por acontecer)

Masturboy era um garoto que morava perto de nossa casa que tinha a pele meio esverdeada, olheiras muito profundas e escuras, e vivia se queixando que estava cansado, pouco brincava com a gente porque não tinha muito preparo físico. Não foi à toa que Epifânio desconfiou que ele se acabava na covardia do cinco contra um no banheiro, e não eram poucas às vezes durante o dia, pois o cara vivia com aquela cara de fadiga crônica, por isso o lôro colocou-lhe o apelido de masturboy.

-O que tem ele Epifânio?

Tá escondido atrás de uma moita observando alguma coisa ou alguém...estou esperando para ver se aparece alguém. Acho que tá aprontando. Vou ver de perto.

E já foi descendo com aquela agilidade que só ele tinha, em dois lances já estava no solo andando agachado rumo à estrada de barro.

Vimos quando ele parou...se levantou...e ficou estático mirando alguma coisa. Continuávamos no cajueiro sem saber o que de fato acontecia, mas em breve teríamos uma grande surpresa. Epifânio voltou calado, subiu, não nos olhou, ficou numa posição de costas pra nós três...

O que era mano? O que o masturboy tava xeretando? ...calado estava....calado ficou...de costas...aí falou:

-Tem alguém na casa do multi-homem... ... ...e... é linda.

-Quem será gente? Perguntei. Se é linda deve ser visita de outra família, porque na família dele só tem gente feia, lembram da Soninha, a zoiudinha? Outro dia sonhei que tava pegando aquela guria numa festa...quando ia beijá-la tive acesso de tosse no sonho...meu Deus, acordei quase tuberculoso de tanto que tossia, acho que foi meu subconsciente se defendendo daquele beijo da morte, suava em bica.

-Não sei quem é, mas...é linda...e vai ser minha...ah vai!

Ou Epifânio fora possuído por um espírito imundo de pretensão descabida, ou de presunção repentina ou de fato falava sério, simples assim. Mas não imaginávamos que aquele nego beiçola do cabelo loiro, feio, irresponsável, inconsequente, que estava sempre sem camisa mostrando um corpo desprovido de pelos e a quem pouco se dava crédito, poderia se dar bem com qualquer exemplar do sexo feminino. Fato é que à noite estávamos todos reunidos falando sobre o assunto...quem era a garota na casa do multi-homem? Epifânio não estava conosco e resolvemos fazer uma visita ao amigo que recebia a ilustre visitante. Chegamos todos juntos, nessa hora a turma estava toda reunida, guepardo, sobrancelha, 213,camarão e eu, só Epifânio não estava. Ela não era linda, o lôro foi injusto com a menina, ela era...perfeita...chamava Dalila, tinha olhos graúdos meio caídos, boca carnuda (parece até que só apareciam dessas bocudinhas nas nossas vidinhas de adolescentes), os dentes bem branquinhos e havia uma falha nos dentes que lhe davam um charme especial, magrinha sem ser seca, cabelos compridos, lisos, tinha uma pintinha no rosto, um sinal de belezura. Manel Hilário nos apresentou como prima dele, mas na realidade era uma prima tão tão distante que me faz pensar no reino do Shreck.

Ela pouco falava, pouco sorria, por mais que tentássemos parecer agradáveis parecia que não tínhamos êxito em nada do que falávamos ou fazíamos para agradá-la. A varanda da casa do multi-homem parecia mais um anfiteatro rural onde uma atração principal se punha ao centro e os espectadores esparramavam-se ao seu redor...algo...quase circense.

Passava das oito horas quando vimos um vulto na estradinha, caminhando em nossa direção, parecia mais uma camisa branca flutuando...era Epifânio, diferente, tava vestido, de camisa, calça, sandália percata (alpargatas), e pasmem, gravatinha borboleta, kkkk inacreditável, o lôro tava realmente disposto a conquistar a guria...foi se aproximando, aproximando, numa altivez, num charme que só ele....não tem...quando chegou Manel levantou orgulhoso e foi apresentar a prima ao amigo, era uma cena quase tão solene quanto a posse do Presidente do Senado.

Disse o multi-homem:

-Epifânio, essa é Dalila minha prima lá de Goiás, veio visitar a gente.

Epifânio não tirava o olhar do olhar dela, um olhar de sedutor, tipo Dom Juan, a menina parecia enfeitiçada por aquele olhar, pois não conseguia desviar os olhos daquele belo exemplar dos zulus....belo?...pulemos essa parte... ele estava em pé, de costas pra nós, com a mão estendida rumo à garota, que se levantara também para cumprimentar aquele guri completamente diferente dos que já vira até aquele momento naquele lugar esquecido de Deus...no exato momento em que ela lhe tocou a mão ...Epifânio soltou um peido...putamerda Epifânio, o que é isso? Na nossa cara?....ele ficou tão sem saber o que fazer que abriu os braços num abraço envergonhado e já foi pedindo desculpas...FUI EU, FUI EU, DESCULPA, DESCULPA, FOI O CAJU, FOI O CAJU.... tadinhos dos cajus, levaram a culpa dos flatos fedorentos...o filhote de cruz credo ainda virou pra nós e pediu com a cara mais sem vergonha querendo chorar: -GENTE AJUDA AÍ, CHEIRA TODO MUNDO JUNTO PRA ACABAR LOGO ESSA CATINGA...parecia que o moleque tinha comido um casal de mucura assada na folha da bananeira e banhada no molho da castanha, e que a castanha também estava passada já....a menina ficou mais constrangida que ele e sem saber o que fazer...e mais verde que o masturboy coitada...não devia estar acostumada com esse tipo de boas vindas...lá pelos Goiás não deve ser assim...ou é? Sei lá!!!

Epifânio Augusto Cortez de Sena, seu criado, não despertou o amor em Dalila, também não despertou o nojo, mas despertou uma enorme curiosidade na garota pra saber o que ele tinha na cabeça quando se vestiu daquele jeito como quem vai fazer exame de fezes e não quer que ninguém saiba que tá levando um potinho de cocô no saquinho dentro bolsa. Depois que o vexame diminuiu ficamos conversando até tarde e todos foram pra casa, menos Epifânio, cuja mãe não se importava muito se ele chegasse tarde em casa, pois sabia que ele sabia se cuidar.

O tempo que Dalila esteve na casa do primo Manel foi na companhia de Epifânio, queria encontrar um era só saber onde o outro estava. Foram dias de calmaria no cajueiro do seu Neco, nas gazetas da escola, e nos lugares por onde andávamos aprontando na companhia dele. Esse tempo serviu para nos mostrar que sem a companhia dele éramos apenas garotos comuns, mas quando ele estava por perto...éramos heróis nacionais mudialmente conhecidos na nossa cidade...todos conheciam nossa turma e respeitavam, até mesmo os garotos mais velhos não tiravam onda com a gente.

No dia que Dalila iria voltar pra cidade onde morava, Epifânio sumiu, a menina pediu que procurássemos por ele, fomos na casa dele, na escola, no igarapé grande, no fumódromo, onde às vezes íamos jogar bola com os maconheiros da área, nos sítios onde costumávamos ajudar na colheita do pés de fruta...colhíamos pra nós é claro...mas nada de Epifânio...estava triste em algum lugar, afinal, o melhor que já lhe acontecera estava partindo da cidade e partindo seu coração. Não sei se ela o namorou naqueles dias, mas sei que ele não só a namorou como noivou e casou com ela em seus mais prazerosos pensamentos. Neguin tava chorando em algum lugar! O ônibus que a levaria pra cidade pra pegar o avião já se preparava pra partir...a família do multi-homem (que chorava feito menina) estava toda lá pra se despedir...nós também...abraçamos Dalila, que chorava muito, e fazia com que nossos coraçõezinhos adolescentes sofressem também. Entrou no ônibus...o motor já estava ligado...o motorista fechou a porta e a menina não parava de procurar Epifânio, com os olhos inchados de tanto chorar...olhava pra todos os lados pela janela do busão sem nenhum sinal dele...ela sentou, baixou a cabeça entre as pernas e sofreu..sofreu como quem sofre com a experiência de morte...o ônibus se moveu...saiu da inércia e...de repente...ouvimos um alvoroço...uma gritaria que de baixinha se agigantava...um frisson que tomava conta da plataforma...olhamos e vimos Epifânio chegando a galope num cavalo no mínimo roubado de algum sítio da redondeza...bem ao estilo Epifânio, sem camisa, só de short surrado, descalço, braços para o alto gritando: “-PÁRA, PÁRA, PÁRA OU ATROPELO ESSE ÔNIBUS”...o motorista num misto de surpresa e temor freou bruscamente o intermunicipal. A galera vibrou com a chegada dele, ele sabia como fazer uma grande entrada, fosse com vespas, poraquês, ou cavalos ele sabia como ser o astro do momento, e fazia isso com uma naturalidade e ingenuidade de criança. Epifânio apeou do cavalo, e sobre o aplauso da galera parou à porta do coletivo sem nada dizer....o motorista olhando fixamente para ele e ele para o motorista numa batalha interplanetária mental...o lôro não desgrudou o olhar do motorista que sem ter muito o que fazer e vendo a euforia de todos na plataforma, muito a contragosto, abriu a porta do veículo. Antes de subir, ele olhou-nos tão emblematicamente que nada precisou dizer para nos lembrar das palavras que proferiu no primeiro dia de contato com sua deusa:

“-Não sei quem é, mas...é linda...e vai ser minha...ah vai!”.

Subiu imponente como um Hércules subindo o Monte Olimpo...de fora podíamos ver o semblante de Dalila, agora em pé, olhando o “amigo” parado na entrada do corredor de poltronas...o motorista quis falar alguma coisa, mas se deparou com os olhares da gangue...GUEPARDO ANDANTE, SOBRANCELHA DO CAPETA, CAMARÃO, CODINOME 213, MULTI-HOMEM...e eu, na porta do ônibus lhe fitando com cara de poucos amigos como que lhe dizendo: Ele é nosso amigo... ... ...vai encarar?...não encarou, ficou quieto...

Epifânio abriu seus braços e Dalila se aninhou com os braços encolhidos, aos prantos, como querendo se sentir segura naquele abraço juvenil, agora tão adulto e tão protetor...ele que não era tão mais alto que ela, levantou o queixo e apenas lhe abraçava apertada e demoradamente...era como se ela quisesse dizer...”vem”....e ele...”fica”, mas éramos todos muito crianças para assumir tais responsabilidades...não conseguíamos nem passar direto no colégio sem ficar de recuperação. Ele olhando nos olhos dela, se vendo no olhar dela, disse: “-não importa onde você esteja... ... ...com quem você esteja... ...você mora dentro de mim...sou teu!” e ela: “-não importa quanto tempo... ... ... quantos abraços... ...você mora dentro de mim...sou tua!” e chorando... permitiram que seus lábios se aproximassem cada vez mais e...se tocaram...suavemente...ambos puxando profundamente a respiração sentindo o cheiro um do outro como num enigma que só eles sabiam o significado...ele afagava seus cabelos longos e a puxava firmemente como querendo se fundir com ela...a plataforma toda em silêncio...os passageiros dentro do ônibus em silêncio...a hora era de partir...ele pegou a mão dela...colocou na boca....e...passou uns bons segundos nesse gesto que nos parecia um beijo, mas não era....ele a marcara com os dentes...ela não reclamou de dor...sabia o que ele estava fazendo, aceitava passivamente ter a marca dele...ele levantou a cabeça e disse...”-quando você se sentir sozinha, olhe sua mão, me veja...me sinta... seja eu...serei você...me espera no amanhã...me espera no futuro...vou procurar você Vida!” (era a primeira vez que o ouvíamos chamá-la de algum nome...Vida...lindo)...”-sei que vai, ela disse...vou esperar o tempo que precisar”...e aos prantos ela o deixou ir...e se separaram...ele desceu do coletivo candidamente, olhou-nos com autoridade, virou-se para o motorista e... ... ...anuiu com a cabeça como que autorizando sua partida. Ninguém ousava pronunciar qualquer palavra...todos tinham noção da dor e do sofrimento que estavam sendo vividos ali...o ônibus se foi...Dalila se foi...Vida se foi...mas a esperança do reencontro permaneceu...e terá seu desassossego a seu tempo.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Epifânio Augusto em: Inglês na ponta da língua.


Capítulo 3

 Inglês na ponta da língua

Todos tínhamos na base de 14 anos, no ginásio, tipo 8ª série, usávamos umas camisas padronizadas do governo assim, calça social azul marinho e blusa de botão na frente...coisa horrorosa...mas era obrigatório. Sem falar no bolso rsrsrs tinha até o brasão do governo, a maioria tinha escrito CENTRO EDUCACIONAL FULANO DE TAL. Bom, éramos garotos e em toda história de garoto sempre tem??Hã??? O quê???Vamulá, vamulá...diz diz....hã? hã? ...”Mentiras de garoto”...um querendo ser mais que o outro, todos os dias um tinha uma aventura pra contar, e era cada uma que parecia duas, três, quatro...o certo é que não tinha um dia abençoado do Senhor que um de nós não tivesse alguma ESTÓRIA pra contar...              ...e aí vai mais uma do neguinho...

Epifânio Augusto......seu criado...

Inédita...incrível...inimaginável...ininverdadeira...(caralho que palavra feia!...espero que pelo menos exista no dicionário?)

IlenaKanto era seu nome. Quando viera transferida de uma escola do município vizinho ao nosso, não imaginávamos que mudaria completamente a vida de alguns de nós. A dele principalmente. Olhem bem...mas olhem com os olhos de pureza, porque nada aquém disso poderá vislumbrar tamanha delicadeza e suavidade em tudo o que fazia...vejam...com os olhos do coração. Japonesinha...putaquiupariu!!!...parou parou...pronto, não precisa dizer mais nada...os únicos japoneses que tínhamos vistos até então, eram seu Nakamura e dona Tomiko, um casal de agricultores de pimenta do reino que tinham lá seus...hum...deixa eu pensar...hum...seus 114 anos cada, porque japonês vive até acabar, é que nem lápis de dono de venda que anota fiado no caderninho...era só olhar pra orelha dos desgraçados que lá estava o toquinho de lápis, mas usavam até acabar...que nem vida de japonês...e ela chegou com aquela pele clarinha, bem cuidada, feito veludo, mas mais suave...olhos em risco...mas não um risco de arriscado, um risco de riscado...tipo só dois risquinhos assim de tão fechadinhos que eram. Quando falava, logo ligávamos sua voz ao seu nome, pois era como um CANTO celestial...uma doçura de voz que nos embriagava, nos entorpecia...nos...nos desnudava...não, isso não, isso quem fazia éramos nós mesmos...em casa...naquele momento de fórum íntimo reflexivo oratório, auto imune aos berros de quem precisava usar a latrina kkkkk tudo isso pra dizer...no banheiro, sozinho...pensando nela....todos a pegamos...eu a engravidei umas dezessete vezes.

Tinha 21 aninhos, era professora de Inglês, havia morado nos estates, o outro professor havia falecido há poucos meses e ela viera em substituição...morte providencial...que Deus o tenha. Quando entrava na sala e dizia GUDIMORNIN CLECE, em uníssono respondíamos, ou balbuciávamos algo tipo...vahvahvohvihtchitcha.... hahahahaha que doideira...era muito doida essa hora...ninguém entendia nada e ao mesmo entendia tudo...ela falava com o corpo...as meninas da sala olhavam para a professora com ódio mortal e nós não olhávamos pra ela, olhávamos por ela, através dela, da roupa dela...ela nem usava roupa na nossa cabeça...era assim...tipo...um ser despido de si mesmo...no real sentido da palavra...não dá pra explicar, era surreal...era uma mulher nua na frente da lousa, vestida só com um giz na mão. Um dia ela disse que precisava de um voluntário pra servir de monitor na turma dos pequenos em que lecionava ...pense na gritaria todos de pé e de mão levantada...EU EU...EU EUEUEU ...NÃO...EU...alguém perguntou “pra fazer o quê fessôra?” ela respondeu “-pra dar aula de inglês para iniciantes”...

Creeec...plaaac...todos sentaram ao mesmo tempo arrastando as carteiras....todos? ...eu disse todos? Não...nem todos...heroicamente destemido o pretinho se manteve de pé...de braço erguido...mal sabia falar seu nome, ler que é bom nada, só soletrava, passava de ano sempre na recuperação e não poucas foram as vezes em que foi pro conselho de classe...uma espécie de tribunal escolar que julgava quem merecia ser salvo e ir pro paraíso da aprovação, ou queimar no inferno estudantil da repetição de ano, mas ele fora o único que se manteve de pé voluntariamente. Acho que nem mesmo sabia o que estava acontecendo, talvez em sua mente estivesse pensando numa praia com a professora Ilena...brincando de manja pega... nus...com ela olhando pra ele e fazendo uma cara de mulher apaixonada...ah nego tuíra beiçudo danado!

Na manhã seguinte ela não teria tempo conosco, mas teria na classe dos menores e adivinha...Epifânio de camisa social, de manga comprida, amarelo canela enfiada numa calça de bolsos enviesados, desfilava na escola, metido, se achando o próprio sobrinho americanizado do Tio Sam...bateu a campa...todos foram para as salas...teríamos naquele horário, aula com o professor Roberto de história...ele fez a chamada...e...mal começamos a ouvir sobre os senhores feudais e aquele vulto amarelo atravessou o pátio central da escola rápido como um raio, mais parecia um Camaro Amarelo de tão rápido que passara...não...naqueles dias não havia Camaro Amarelo...estava mais para uma Brasília Amarela...veloz...tão veloz quanto...uma...Brasília Amarela...Epifânio Augusto passou zimpado no rumo de casa...todos se olharam e...rindo baixinho sabíamos...deu merda! Hihihi

Alguns dias depois ele voltou pra escola...meio sem graça...mas voltou...e não podíamos deixar de perguntar...

Mano...o que aconteceu? E ele nos contou...

Naquela manhã a professora Ilena me apresentou pra turminha de uma maneira que me senti o mestre dos mestres, o professor dos professores...Paulo Freire era débil na minha frente...ela me disse que eu ensinaria alguma coisa nova pra eles...não precisava ser nada muito avançado, só alguma palavra nova... que eles não conhecessem...porra...pensei em LOVE.... caralho mano eu sei o que é LOVE...é AMOR...eu não ia errar essa...era a palavra perfeita...AMOR...falava tudo sobre aquele momento...sobre o que eu estava sentindo...caramba mano o amor estava no ar...eu ia aproveitar e falar pra professora sobre o LOVE no meu coração e...já tinha até imaginado a cena em casa...ela me olhando ...eu olhando pra ela e dizendo...LOVE...LOVE me balançando assim...com aquele gingado que só negão tem sacô...e tava eu ali...porra...viajando na minha mente e...sabe como é né? (ele ele fazia uns gestos assim com as mãos e braços e pernas e boca e todo o corpo, parecia drogado) e disse que quando estava nesse transe...quase transa.... com a japonesinha...o gordinho neto da dona Luzinete, merendeira da escola, perguntou de supetão:”-fessô...o que significa TENKIÚ ? ...#$%¨&*#@...cara eu cai do cavalo!!! Foi como um coice...uma chicotada nas costas...aquele gordo filho, neto e bisneto de quenga não podia ter feito isso comigo...não na frente da professora Ilena...cheguei a desejar que ele morresse comido por um jacaré, sendo dilacerado pelo giro da morte do réptil, ou mordido de cobra venenosa, que morresse entalado com um pedaço de jabá, e fosse ficando todo roxo e ninguém conseguisse tirar o bendito pedaço de charque da goela desse maldito...que quando chegasse em casa a casa estivesse pegando fogo com toda a família dele dentro...ah gordo maldito...que porra é essa de TENKIÚ???? Tenkiú é o teu kiú...seu filho do capeta....gelei...não sabia o que responder...fiquei branco...as mãos suaram...as pernas tremeram....olhei pra professora e os olhos dela agora pareciam duas bolas de sinuca de tão arregalados...esperando a resposta...acho que ela pensou que eu soubesse que cacete era aquele...e eu ali...perdido...sozinho...tinha que pensar rápido numa saída e...

“-AI FESSÔRA AGORA QUE EU ME LEMBREI QUE MINHA MÃE PEDIU PRA TIRAR A ROUPA DO VARAL QUE VAI CHOVER”...e saí correndo feito uma bala daquele pedaço de inferno que aquele gordinho criou...parei de correr lá em casa já mentindo pra mãe dizendo...morreu um tio, do pai de um colega da diretora mãe e não vai ter aula hoje...minha mãe só disse...“sei”.

Eita Epifânio...é um artista...

Mensagem pra você que ama e que é amada.

Todas as manhãs são assim, uma maneira de sentir prazer estando distante fisicamente de você, mas é claro, não considerando que a presença física seja tão importante quanto a presença psíquica, emocional, espiritual.
Ainda hoje ouvi uma música que me fez desejar me apaixonar por você novamente, mas....ontem eu já fiz isso oras, e antes de ontem também. Aí cheguei à conclusão que a energia que me faz continuar é me apaixonar por você a cada manhã, e a cada manhã me sentir um pouco mais apaixonado que na manhã anterior, e tendo a certeza que só estarei menos apaixonado que na manhã seguinte, pois a cada dia teu amor me enche, me renova, transborda não em mim, mas de mim...a partir de mim.
Lembra? Quando estamos longe, aparentemente longe, é quando mais sentimos necessidade de estarmos perto, bem perto, junto, sobre e sob, dentro.
Incomparável beleza é aquela cujo espelho do coração reflete a soberana formosura do ser amado... do ser querido... da outra metade. Nada mais há a ser dito acerca da forma como a graça e a leveza da mulher que amo me faz respirar, e transpirar paixão, desejo, fascínio.
Tantas são as veredas que o amor percorre até encontrar guarida no lugar seguro, correto, livre e preparado especialmente para sua chegada. Quase sem querer me apanho a imaginar se não tivesse sido você a me escolher, a me encontrar a se assenhorear de mim. Digo quase sem querer por não ter a certeza que tanto bem te faço como a mim me fazes, mas, não desisto de sonhar e continuar sonhando que sou perfeito pra você, e você pra mim, e você e eu pra nós.
Agora, nada mais há pelas próximas horas, que o desfrutar do findar do dia na tua companhia, com a certeza no coração que ao amanhecer, esse sentimento de satisfação dará lugar a uma enorme necessidade de me apaixonar novamente, e novamente, e novamente. E se alguém disser que isso não é amor é só paixão...rsrs, que vá criar sua própria forma de amar, porque estou muito satisfeito com a minha....e ela também...pergunte a ela se quiser.


domingo, 2 de novembro de 2014

Epifânio Augusto em: O Cãopirôto


Capítulo 2

O Cãopirôto

 Era manhã de sábado, o sol ardia, pouco antes das oito, estávamos todos muito bem vestidos, Carlos Magno, Paolo, Rubinho, Manel Hilário, e Mário Alberto, e eu, mas ele...ele não estava lá. Ela aparecera na escola durante a semana, mais precisamente na quinta feira e estes dois dias foram suficientes para mudar nossa visão da vida, da lua, do vento, do sol, dos pássaros, até dos cães que chutávamos na rua...passamos, como num passe de mágica, a amar todos os animais do planeta, o javali (ai que lindinho), a onça, o texugo, o orangotango (parece um principezinho), o poraquê (eletrizante), apesar de duvidar que qualquer um de nós já tivesse visto um javali, ou onça, ou esses outros aí de pertinho, mas...os amávamos...amor de Deus pelos animais... olha que coisa!!! kkk, ficamos todos muito românticos, muito humanos,  digo, nada humanos....o sentimento que nutríamos nada tinha de humano...humanos são maus, em sua grande maioria, e a minora?....são péssimos...mas o sentimento era algo assim...tipo..celestial. Viera de outro estado e se chamava Valentina Gurgel, Maria Valentina Amâncio de Freitas Gurgel pra ser mais preciso...era a própria visão do divino, olhos esticadinhos, quase nipônicos, uma pele marrom queimada, mas não era queimada de sol, era queimada de fábrica, tipo, produzida na fornalha vulcânica do amor de seus pais...cabelos cacheados, presos na lateral por uma dessas fivelinhas de apertar que faz plec, sobrancelhas grossas, quase unidas, de uma textura de veludo negro azulado que bem lembrava as saias da boneca Barbie...hum...e a  boneca Barbie usava saia de veludo? Alguém sabe dizer? Nem vou falar nos lábios...er...err...como não falar? Aqueles lábios...hummm que lábios...lábios reticentes, omissivos que guardavam segredos ocultos, segredos já são ocultos ora, mas os que aqueles lábios guardavam não eram nem para se pensar em desvendar, houve quem morresse tentando desvendar mistérios de lábios como aqueles...ahhh...seus lábios...eram carnudos sem exageros, quando sorria tomava de assalto nossas mentes e vistas e ficávamos como quem sonha um lindo sonho...aqueles lábios de morder guardavam dentes tão branquinhos que a brancura polar não lhe era suficientemente comparável.  Adventista do sétimo dia, vestia-se de maneira sóbria e quando falava...sua voz...que voz...suave sem ser frágil, doce e firme feito rapadura...foram duas noites em que cada um de nós dormiu pensando nela, ouvindo sua voz, imaginando como seria o primeiro beijo naquela boquinha linda que faria Joli invejar...esperávamos ansiosos por sua chegada à igreja...quem passava na frente da igreja e nos via ali, não só se admirava como se benzia, rezava o credo, invocava os orixás e dava três pulinhos, (égua que porra é essa?!!!), que gente preconceituosa, como se aqueles jovens fossem endemoniados e irrecuperáveis...confesso que eu também acreditava nisso àquela época, éramos danados demais...mas...lembrei que...ele não estava lá...a vontade de ver Valentina era tamanha que nem pensávamos ou lembrávamos dele, que fazia parte da turma também, mas naquele momento, já éramos seis guris com os hormônios à flor da pele numa silenciosa disputa para saber quem receberia o primeiro olhar dela...da diva.

Dois dias...apenas dois dias e já éramos os primeiros à porta do céu caso Jesus voltasse naquele momento, de tanta que era a nossa santidade, ou pelo menos a que queríamos que ela pensasse que tínhamos, mas...ele...ele não estava lá.

Eis que chega o carro do pai dela...não lembro bem que carro era, mas sei que era verde, um verde que contrastava com qualquer uma de nossas roupas, Mário Alberto usava uma blusa cáqui e uma calça de brim tingida de preto para parecer nova, lembro bem que ele a usara na festa de ano novo dois anos antes, eu de listras em vermelho e amarelo, Manel Hilário de camisa branca de uma marca conhecida...Hering...Carlos Magno de roupa social que findava num colete igual esses que os escritores usam...almofadinha!! Paolo era o mais novo de nós e estava de conjuntinho infanto juvenil e Rubinho de calça USTOP e camisa xadrez...e o carro? ...verde ora...tão somente verde...mas ele...bom...ele não estava lá...

Ela desceu do carro e o sol pareceu diminuir seu brilho...há bem poucos minutos atrás teimava em nos derreter com seus raios ardentes e ...acho que ficou tímido diante daquela formosura de menina...ainda não chegara ao Debut, mas nem o imponente astro rei encorajou-se a encarar-lhe o brilho...que divina...vestido longo, sereno, de cores tradicionais, um sapato de salto alto baixinho, desta feita usava no cabelo uma travessa de florzinhas...se dirigia a nós em passos suaves...sorriso nos lábios...duvido que algum de nós não tenha pensado em casamento naquele momento apesar das poucas idades, entre 13 e 14 anos...mas agindo como homens...mas ele não estava lá...não, não estava lá...   ...   ...não o quê?????

De repente ouvimos um “-CÓÓÓÓÓRRRRREEEEE!!!!”

PUTAQUIUPARIU era ele...Epifânio Augusto descia a ladeira ao lado da igreja desembestado, vindo lá de cima, dum quintal onde havia uma mangueira frondosa, com um enooorme vespeiro no tronco, bem lá no alto...tinha derrubado a casa das vespas...o preto safado descia numa velocidade supersônica, aos berros e se batendo...passou por nós como uma bala preta...não...branca...não......preta albina...kkkkk...não tivemos nem ação de correr...o enxame chegou...não, enxame não...aquilo não era um enxame era um tsuxame.....a paquera acabou, o brilho acabou, o vestido acabou, o verde do carro acabou...só restaram os gritos de ai, ai, ai, ...olhei pra trás no momento da fuga e deu tempo de ver a menina gritando pelo pai e tentando se livrar daquela nuvem de marimbondos...tadinha...soube mais tarde que os lábios outrora carnudos sem exageros, ficaram exageradamente inchados...hihihihi!!

Dias depois nos contou Epifânio, derrubara o ninho para pegar mel...caralho Epifânio essas aí são as abelhas burraldo!!!!...são as abelhas que fabricam o mel...as vespas são como mulher casada enxerida...só fabricam dor e sofrimento, seu mentecapto...

Ele era assim...endiabrado...não passava um dia inteiro sem aprontar alguma traquinagem...sem fazer uma pretice...

Soube há um tempo atrás que Valentina casou com um irmão da igreja...que bom...melhor assim...acho esse povo de igreja meio paradão, sabe? Sem muita diversão...se qualquer um de nós tivesse ficado com ela, esse perderia a amizade do lôro Epifânio porque ele não iria à igreja...com ele nem Deus quis se meter...imagino Deus olhando pra ele e pensando...“Como pode alguém ter nascido pior que Lúcifer?”

E a igreja? Bom... a igreja...passou a vontade de sermos salvos...na verdade a salvação para nós naquele momento estava na figura de Valentina...ela iria nos redimir dos nossos muitos pecados e iria nos levar pessoalmente até as portas do paraíso...a beiçuda, agora era assim que a chamávamos hahaha...deixou de ser o alvo de nossas “imaginações”...o lôro conseguiu essa proeza...naquele dia ele foi mais importante do que ela nas nossas vidas...ele nos livrou da tentação da mulher bonita na vida de um garoto...garotos são como brinquedos nas mãos delas...as...mulheres...

De certa forma o cãopirôto fez mais uma coisa boa por nós...pelo menos comigo se deu assim...sempre que me trancava no banheiro para aquelas horas de meditação, reflexão e muita oração, cê entende, né? Quando Valentina começava a rondar meus pensamentos, me vinha à mente a tragicômica cena do neguinho de cabelo pintado de lôro descendo a ladeira, correndo, se batendo, com um exército alado em seu encalço...HAHAHA não tem pintinho duro que resista...e me espoco de tanto rir e saio logo do banheiro...

Epifânio não tirou água da rocha, não abriu o mar vermelho, não andou por sobre o mar, mas... tentou...ah sim...tentou beber do mel das vespas...

O que eu sei é...se Jesus voltasse agora para pegar os seus...nós sete estaríamos novamente no fim da fila...se é que estaríamos na fila.


 

Deusa Arte.

MÚSICA Já escrevi sobre a presença da arte nas nossas vidas. “A arte é assim, alguns gostam, outros nem tanto, outros são distantes, mas tod...